Carmina Burana – O Fortuna e a Concepção de Tempo e Vida na Idade Média

Antes de começarmos a leitura do texto de hoje, peço que assistam o vídeo abaixo:

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Carmina Burana torna-se mundialmente famosa em 1937, sob a égide de Carl Orff. Sua cantata é utilizada fortemente em filmes, comerciais e na televisão, além de possuir uma história curiosa (Projeto Musical, 2006). Os poemas foram escritos numa época em que a influência da música religiosa no ocidente, era o canto gregoriano. Carmina, é o plural de Carmem, que por sua vez traduzido do latim vulgar significa canções. A utilização desses poemas por Orff, caracteriza-se pela fuga dos temas religiosos e trata de temas do cotidiano, onde a “…parábola presente é a roda da fortuna, onde o azar e a sorte estão presentes para o ser humano em todos os momentos de sua vida” (Analisando Música, 2007).

O Fortuna, é um poema que faz parte dos manuscritos de Carmina Burana (em português Canções de Beuren), que são um conjunto de poemas e canções do período medieval reputados como profanos, dramáticos, irreverentes, picantes e satíricos, escritos principalmente em latim medieval. Observa-se algumas partes da obra, escrita em linguagem macarrônica (mistura do latim vernáculo, alemão ou francês). Encontrados num rolo de pergaminho no Convento de Beneditino ou Benedikbeuren, em Baviera, sudoeste da alemanha por volta dos anos de 1830 – 1840, supostamente escrito entre os séculos XII e XIII pelos Goliardos.

Com a expansão e crescimento do comércio, das cidades e da população, eclode um novo “ser” intelectual, impulsionados pela inquietação da ciência crítica e dos desejos carnais, os Goliardos. Por sua vez, eram clérigos que desvalidos pela igreja tornavam-se indivíduos intinerantes, que para Le Goff “são frutos da mobilidade social, característica do século XII” (2003, p 29). Esse autor ressalta também que o termo Goliardo advém de uma narrativa bíblica, Goliath (cuja tradução do hebreu significa “exílio”), inimigo de Davi em um embate. Podemos citar Pedro Abelardo, “Golia Abelardo”, como um dos principais pensadores da época, tipificado por Paul Vigroux como “cavaleiro da dialética”.

Agora remetemos a palavra Fortuna. Para a mitologia romana Fortuna é a deusa que nutria a esperança dos homens. Dentro da cultura romana acreditava-se quase que de maneira visceral que os Deuses decidiam o destino do homem. Dado esse fato, Fortuna na sua condição de Deusa da Esperança e da Sorte (boa ou má), poderia atrair prognósticos para sua vida diária ou futura, onde traria felicidade para alguns e infortúnio para outros. Figurada por uma cornucópia (antigo símbolo de fertilidade e riqueza) numa mão, um timão, uma roda, e casualmente vendada por algo, ou até mesmo cega. A cornucópia representa os bens e prosperidade dos homens, o timão “coordenava” a vida dos mesmos. A roda almejava segregar de maneira justa, os felizes e os sofredores, e por fim sua cegueira ilustrava essa distribuição de maneira igualitária.

Conspecto pelos antigos medievais como deusa do acaso, Fortuna na Idade Média, simbolizava a Roda da Vida, que enaltecia o homem até o mais alto antes deixa-lo cair, assim como a Roda do Acaso, que nunca parava de rodar; indicando constantes mudanças, tidas como característica da natureza humana. A ideia de  perpétua mudança pode ser vislumbrada no trecho “ statu variabilis” (3), que traduzido para o português diz: “uma forma variável”, sugerindo as diferentes formas que a Deusa do Acaso apresenta-se ao longo da vida. Interpretando os subsequentes versos do poema, “semper crescis” (4) e “aut decrescis” (5), sob perspectiva de “altos e baixos”, conseguimos identificar também os ideais de Roda da Vida e Roda do Acaso. A soma destes três versos torna nítida a idéia de constante metamorfose vivida pelo período, diferentemente da trova “vita detestabilis” (6), onde percebemos parte do caráter dramático da poesia.

Em sua obra Doctrina Pueril, o autor Ramon Lull, considerado mais importante escritor, filósofo, poeta, missionário e teólogo da língua catalã, utiliza O Fortuna para fazer uma comparação dos grupos sociais daquele tempo, principalmente aos cobradores de usura (usurários), a quem critica. Destaca-se que as conquistas mundanas (riquezas) são fúteis, por consequência burgueses avarentos tentados ao lucro, serão punidos mais tarde por Deus. Segundo Lull (COSTA, Ricardo; ZIERER, Adriana. Boécio e Ramon Llull: A Roda da Fortuna, princípio e fim dos homens):

“Enaxí com a roda qui.s mou engir, se mouen, fill, los hòmens qui són en los mesters demunt dits. On, aquels qui són en lo pus bax offici en honrament, desigen a puyar cade dia, tant que sien en lo cap de la roda subirana, en la qual estan los burguesos. E cor la roda se à a girar e a enclinar a aval, cové que offici de burguès ya caya a aval.”

“Assim como a roda que se move dando voltas, filho, os homens que estão em seus mesteres acima ditos se movem [lavradores, ferreiros, mercadores, sapateiros, etc.]. Logo, aqueles que estão no mais baixo ofício em honramento, desejam subir a cada dia, tanto que estejam no lugar da roda soberana, na qual estão os burgueses. E porque a roda se vai a girar e a inclinar até abaixo, convém que ofício de burguês caia abaixo”

Além da crítica aos novos preceitos burgueses, ou autor corrobora o intenso desejo de mobilidade social da sociedade medieval no século XIII. Desta maneira, os versos “Sors salutis / et virtutis / michi nunc contraria” (25-27), conseguem facilmente ser assimilados a idéia do autor relacionado ao burguês avarento, que adquiri / detém riquezas através da usura. No entanto, a Roda da Fortuna nunca para de girar, de tal maneira que a punição divina do homem dita por Lull, pode ser interpretada nos trechos finais “quod per sortem / sternit fortem / mecum omnes plangite” (34-36). Vale ressaltar que a metáfora comparativa feita pelo autor, não foge a idéia de alternância da vida cotidiana do medievo.

Podemos observar na sociedade medieval uma pluralidade de concepções a cerca do tempo, o modo enxergavam a realidade e sua relação com a eternidade não era um padrão universal. Esses diversos planos temporais coexistiam no seio da sociedade, ou melhor, havia certa sobreposição de uma concepção sobre a outra, como veremos.

Durante muito tempo, povos bárbaros dominaram vastos territórios da Europa. Para esses grupos, que eram essencialmente agrários, a relação com o tempo antes de mais nada dependia do ritmo da natureza. Segundo Gurevith (p 116):

“Na sociedade agrária, o tempo era determinado antes de mais nada pelos ritmos da natureza. O calendário do camponês refletia o ciclo das estações e a sucessão das ocupações agrícolas.”

           Para os povos de tradição bárbara, não havia uma distinção clara entre passado, presente e futuro, esses tempos estavam agrupados e de certa forma faziam parte de um único plano. Eles existiam no tempo presente, mas devido ao caráter cíclico do ritmo da natureza, o qual eram dependentes, esse tempo presente acaba por englobar passado e futuro em única realidade. Além disso, de acordo com essa concepção, o tempo adquiria um caráter concreto e material, não se distinguindo das demais esferas da existências desses povos. Gurevith ( p. 124) afirma:

“No espírito dos bárbaros, o tempo e o espaço não eram noções a priori, independentes da experiência. Existiam unicamente no quadro da própria experiência e constituíam uma parte integrante dela, impossível de se separar da trama da vida”.

           Entretanto, com a passagem do paganismo para o cristianismo, houve uma reorganizavam das estruturas temporais do medievo. A concepção cíclica do tempo não respondia às novas necessidades exigidas pela doutrina cristã, era necessária fazer uma distinção clara entre passado, presente e futuro. O cristianismo, através da leitura escatológica do Antigo Testamento, buscou em um acontecimento central (a vinda do Messias)  a justificativa necessária capaz de reformular o conceito temporal antigo. A história passa a ser delimitadas por pontos (acontecimentos) que fazem parte de uma única trajetória e que culminaria no fim da vida humana. Essa nova concepção de tempo, segundo Gurevith “apoiava-se em três momentos precisos: o começo, o ponto culminante e o fim da vida do gênero humano” (p.134).

          A partir da mudança de concepção,o tempo passa a ser dividido em duas realidades, uma no plano material, onde se desenrolava todos os atos humanos, e ao lado desta existia um plano sagrado, lugar de verdadeira autenticidade e de bem absoluto. Mas, embora o tempo do cristianismo seja caracteristicamente linear, ele não se liberta do seu caráter cíclico, a respeito do tema, Gurevith (p.134)  afirma:

“Somente a sua concepção foi transformada de forma radical. Com efeito, na medida em que o tempo estava separado da eternidade, ao examinar os períodos da história terrestre o homem apreendia-o sob a forma de uma sucessão linear dos acontecimentos, mas dentro dessa mesma história terrestre, tomada no seu conjunto, dentro dos seus limites definidos pela criação do mundo e pelo seu fim, aparecia como um circulo fechado: o homem e o mundo voltando ao criador e o tempo regressando à eternidade.”

          Esse caráter cíclico é presente em todo o poema. Determinados trechos como “egestatem” (10) e “potestatem” (11), a pobreza e a riqueza, respectivamente trazem à tona a volatilidade da vida no medievo, ao mesmo tempo que podem elucidar a propriedade cíclica da época. A idéia do ciclo é “concebida” da repetição constante da instabilidade de vida no período medieval, atados pela Roda da Fortuna, que nunca para de girar. Tal caráter repetitivo atrelado a Fortuna pode ser notado também nos trechos: “rota tu volubilis” (15), “status malos” (16) e “vana salus” (17). A aparente confluência linear do tempo contraposta a instabilidade da vida no cotidiano medieval atrelado as influências religiosas do período, evidenciam a idéia do tempo aparentemente linear, proposta por Gurevith.

         O poema “O Fortuna” transmite a idéia proposta de “repetição do mutável”, onde a construção lírica do mesmo é feita da através da “brincadeira” entre apogeu e perigeu ao longo da trova. Percebe-se na obra uma certa influência romana advinda da Alta Idade Média, período caracterizado pela fragmentação total do império (compreendido entre os séculos V ao X), que faz “surgir”  uma nova realidade estrutural. Por fim, podemos considerar que “Camina Burana – O Fortuna” trata-se da representação de tempo e modo de vida das populações medievais, transcritas de maneira “lúdica” pelos goliardos durante a Idade Média Clássica (séculos XI – XIII).

                                                            REFERÊNCIAS

ORFF, Carl. Projeto Musical. Disponível em:<http://www.projetomusical.com.br/compositor/index.php?pg=orff>. Acesso em: 14 jan. 2017.

LOPES, Eliana Cunha. Carmina Burana, A Cantata Cênica em Latim Medieval. Disponível em: <http://www.filologia.org.br/ixcnlf/13/04.htm>. Acesso em 14 jan. 2017.

COSTA, Ricardo; ZIERER, Adriana. Boécio e Ramon Llull: A Roda da Fortuna, princípio e fim dos homens. Disponível em: <http://www.hottopos.com/convenit5/08.htm#_ftn3>. Acesso em 14 jan. 2017.

LE GOFF, Jacques. Os Intelectuais da Idade Média. Campinas: Unicamp, 2003.

“Carmina Burana – O Fortuna, O drama humano”. Disponível em <http://www.culturaclassica.com.br/carmina-burana-o-fortuna-o-drama-humano/>. Acesso em 15 jan. 2017.

“Analisando música”. Disponível em: <https://musicanalisando.wordpress.com/2007/11/16/carmina-burana-carl-orff/>. Acesso em 15 jan. 2017.

MAHA, Nuno. Fortuna – Deusa da Sorte Romana. Disponível em: <http://irmandadepolimata.blogspot.com.br/2011/07/fortuna-deusa-da-sorte-romana.html>. Acesso em 14 de jan. 2017.

Londrinense, 22 anos, graduando de História pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Além da história, possui uma enorme admiração por astronomia e assuntos relacionados ao universo.
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Lucas Valle

Londrinense, 22 anos, graduando de História pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Além da história, possui uma enorme admiração por astronomia e assuntos relacionados ao universo.

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