Angela Davis e o Mito da Mulher Negra

Amigos filósofos, nesta semana veremos a filosofia em diálogo com questões atuais. Assim como o ENEM em 2015 questionou os estudantes a respeito da contribuição da filosofia de Simone de Beauvoir para o feminismo na década de 60, veremos como a análise de Angela Davis sobre a condição da mulher negra escrava, nos Estados Unidos do século XIX, contrapõe-se à filosofia de nomes como Aristóteles.

Angela Yvonne Davis nasceu em 26 de janeiro, de 1944, na cidade de Birmingham, no estado
do Alabama, região sul dos EUA, onde vigoravam leis que criavam impedimentos legais para que afro-americanos pudessem votar. Como ex-integrante dos
Panteras Negras e referência intelectual, sua produção reflete uma estreita relação entre discussões acadêmicas e militância política. Hoje com 72 anos, a autora passa por temas como feminismo, marxismo, cultura, entre outros.

A filósofa aponta que a ideologia dominante no século XIX, ao ver a mulher como sinônimo de “mãe”, “dona de casa”, apoiava-se em um mito e estabelecia uma hierarquia de gênero em que o feminino era tido por inferior. No entanto este vocabulário não tinha lugar entre as escravas negras, já que as relações entre homens e mulheres dentro da comunidade escrava se mostravam contrárias à tal ideologia. Ela argumenta que a exaltação da maternidade não se estendia às escravas, pois estas eram vistas como instrumentos para o crescimento da força de trabalho. Ademais, Davis afirma que, apesar de as punições sofridas pelas mulheres excederem em intensidade às dos homens, ambos os sexos eram socialmente iguais dentro da comunidade escrava, já que estavam sujeitos à uma exploração que não distinguia gênero. Homens e mulheres negros tinham em comum a luta contra as diversas armas de repressão e dominação.

Simone de Beauvoir, por sua vez, viu profundas analogias entre a situação das mulheres e a Simone de Beauvoirdos negros, pois ambos lutavam contra um mesmo paternalismo que buscava “mantê-los em seu lugar”. Junto com um empenho de legisladores, sacerdotes e filósofos em demonstrar que a condição de subordinação era proveitosa, foram disseminados o mito do “bom negro”, de alma inconsciente, infantil e o mito da mulher “realmente mulher”, ou seja, frívola, sensível e submetida ao homem.

Em sua importante obra O Segundo Sexo, Beauvoir cita trechos em que Pitágoras diz que “há um princípio bom que criou a ordem, a luz e o homem, e um princípio mau que criou o caos, as trevas e a mulher”, enquanto Tomás de Aquino apresenta a mulher como um homem incompleto, um ser “ocasional”.

Temas como a escravidão e a questão da mulher tambémAristóteles apareceram na obra de Aristóteles, a qual o homem livre teria um “direito por natureza” de ser obedecido pelas mulheres e escravos. Para o filósofo ateniense, os corpos robustos dos escravos pareciam feitos para o trabalho braçal, enquanto os corpos esguios dos homens livres seriam bons para a vida política. Baseado em uma ideia de alma e corpo submetidos à uma finalidade da natureza, esta teria impresso a liberdade e a servidão nos hábitos corporais. Já o corpo das mulheres, por ser mais fraco, refletiria uma alma que também o é.

Vendo a principal diferença entre o homem livre e os demais na capacidade que a alma do primeiro teria em comandar os vícios e as depravações do corpo através da razão, ele afirma que a relação de mando e obediência é necessária e vantajosa, pois uns são feitos pela natureza para comandar e outros para obedecer. Por conseguinte, a força de um homem consiste em se impor e a de uma mulher em vencer a dificuldade de obedecer. Já para os escravos, é melhor servir do que serem entregues a si mesmos, pois estes só têm instinto e percebem muito bem a razão nos outros, mas não fazem por si mesmos uso dela.

Contrariamente à filosofia de Aristóteles, Angela Davis aponta que as características reconhecidas nas mulheres não são o resultado de uma condição feminina, mas de um processo histórico. As sobreviventes da escravidão teriam adquirido qualidades que iam contra a ideologia dominante do século XIX, visto que as escravas ocupavam as mesmas funções que os escravos no campo, nas minas, fundições de ferro, etc. A autora fornece relatos em que escravos e escravas lutaram juntos em iguais termos, o que opõe-se à concepção aristotélica sobre a inferioridade do corpo feminino.

 trabalhadoras negras.

As revoltas descritas foram travadas por uma classe, onde as mulheres não podiam ser vistas como “os sexos fracos” ou “as esposas/donas de casa”, os homens não podiam ser candidatos à figura de “chefes de família”, ou “sustento da família”. Ambos eram vistos como bens móveis, unidades rentáveis de trabalho. Mesmo quando trata-se de abusos sexuais, a filósofa afirma que não se deve olhar para a violação durante a escravatura como uma expressão do impulso sexual de homens brancos, mas sim como uma arma de dominação, uma arma de repressão que tinha como função exercer o domínio econômico dos donos de escravos e o controle do capataz sobre as mulheres trabalhadoras negras.

Quanto ao mito de que a mulher deveria dedicar-se à vida materna por uma ordem da natureza, Davis mostra que a confiança na reprodução natural aumentou, em relação aos escravos, com a abolição internacional do comércio dos mesmos, de forma que as mulheres negras passaram a ser avaliadas também pela sua fertilidade. Era necessário aumentar a população escrava de uma forma barata. Porém a exaltação da maternidade não se estendia às escravas, tanto que um ano depois da interrupção de importação de escravos, um tribunal da Carolina do Sul decidiu que elas não tinham quaisquer exigências legais sobre os seus filhos. Outro argumento é que os donos de escravos nunca foram tão longe em excluir as mulheres grávidas e mães com recém-nascidos do trabalho nos campos.

Enquanto Aristóteles afirmou que a relação entre senhor e escravo é harmoniosa e boa para ambos, já que o escravo não pode ponderar, Angela Davis longe disso, relata a grande resistência enfrentada pelos senhores de escravos no livro Mulheres, raça e classe.

E quanto à proposta aristotélica de uma harmonia entre homens e mulheres pautada no domínio masculino? Nesse caso, Davis mostra como a harmonia ganha possibilidade justamente na igualdade entre os gêneros. Uma vez que o campo não tinha nenhuma utilidade para os escravos, o trabalho que poderia ter sentido para sua comunidade era o doméstico, o que ajudou a estabelecer as bases de alguns níveis de autonomia para as mulheres e seus homens. Nele os homens dividiam responsabilidades domésticas e a divisão sexual do trabalho não parecia ser nem hierárquica e nem rigorosa.

Angela Davis aponta em sua obra um legado da escravatura, que deu às mulheres negras uma experiência de perseverança, auto resiliência e resistência na luta pela igualdade sexual.

Angela Davis

Referências Bibliográficas:

DAVIS, A.Y., Mulheres, raça e classe. Gran Bretanha: The Women’s Press, ltda. Trad. livre. 2013

BEAUVOIR, S. O segundo sexo: fatos e mitos. São Paulo: Difusão Europeia do Livro. 1970.

BARRETO, R.A. Enegrecendo o feminismo ou feminizando a raça: narrativas de libertação em Angela Davis e Lélia Gonzáles. Rio de Janeiro : PUC-Rio, Departamento de História, 2005.

ARISTÓTELES. A Política. São Paulo: Escala, col. Mestres Pensadores, 2008.

 

Sejam muito bem-vindas(os)! Meu nome é Rodrigo Castilho e tenho 22 anos. Sou movida por conhecer coisas novas e pelo desejo de ver um mundo com mais igualdade, representatividade e aceitação da diversidade. Como graduanda em filosofia e colunista do EducaHelp, felicito a todas e todos que são amigas(os) do saber [filósofas(os)].
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Rodrigo Castilho

Sejam muito bem-vindas(os)! Meu nome é Rodrigo Castilho e tenho 22 anos. Sou movida por conhecer coisas novas e pelo desejo de ver um mundo com mais igualdade, representatividade e aceitação da diversidade. Como graduanda em filosofia e colunista do EducaHelp, felicito a todas e todos que são amigas(os) do saber [filósofas(os)].

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