As Representações Homoeróticas na Antiguidade Greco-Romana.

Texto de autoria do colunista convidado Julio Capelupi. Procura estudar a História como uma disciplina capaz de promover a interação cultural e social na análise dos processos históricos.

Abordaremos um tema que, normalmente, causa polêmicas: sexualidade. Entretanto, não venho com a audácia de propor um debate sobre a história da sexualidade ou questioná-la por si só; seria muita prepotência achar que em poucas linhas conseguiria esboçar um resumo teórico. Cabe ao historiador – e a quem mais escrever no campo da filosofia e das ciências humanas – fazer um recorte, delimitar uma especificidade para a análise. Com este intuito, o foco de nossa observação será as relações homoeróticas na antiguidade greco-romana. Mas acho interessante colocarmos algumas questões antes e pensar num possível paralelo com nossa realidade.

Heterossexualidade e homossexualidade são conceitos que podem ser transportados para outras épocas? O sexo é sempre visto como uma mistura de liberdade e felicidade; mas qual será o limite dessa liberdade? Será que, de fato, podemos expressar nossas vontades e desejos sexuais sem sofrermos o julgamento social? Muitas perguntas, eu sei. Não pretendo responder todas essas questões de maneira direta e objetiva, mas procuro estabelecer o debate para, se possível, gerar reflexões futuras.

Pensemos no mundo contemporâneo: as constantes ameaças e violências a homossexuais – tanto psicológicas como físicas – apontam para uma realidade perversa e triste. Creio que neste ponto não preciso me prolongar, é evidente que o meio social e até mesmo as instituições estão longe de ver com bons olhos essa relação. Basta observamos os meios de comunicação. As novelas e comerciais propõe a relação entre homem e mulher como modelo de família e de relação sexual. Os programas de humor, a mídia esportiva e outros canais de entretenimento e comunicação fazem das relações entre homens motivo de piadas, escárnio, anormalidade. O futebol, por exemplo, que constitui grande importância na cultura brasileira, convive diariamente com o preconceito aos homossexuais. Enfim, poderia escrever páginas e mais páginas de exemplos que deixam evidente como a sociedade procura enxergar na heterossexualidade seu padrão e modelo de conduta sexual.

Feita uma brevíssima reflexão sobre o presente, adentraremos agora na antiguidade greco-romana. É fundamental entendermos, antes de nos debruçarmos no mundo antigo, que os valores, tradições e práticas culturais dos antigos são outros e, é anacrônico – atribuir a uma época conceitos, termos, costumes que são de outra época – usarmos nossos termos e pensamentos modernos para classificar e analisar uma sociedade tão distante da nossa. Por exemplo: as denominações “heterossexual” e “homossexual” são recentes, usadas pela primeira vez somente no século XIX, quando o sexo começa a tomar espaço das análises e estudos mais aprofundados. Entretanto, para fins didáticos e práticos, usaremos o termo “homossexualidade”. Vale destacar um aspecto: usaremos essa terminologia com o intuito de examinar somente as relações sexuais entre dois homens e, não como categorização do indivíduo, como ocorre nos tempos modernos.

Abordaremos as representações discursivas das práticas homossexuais e como elas se inseriam no ideal masculino romano; estamos falando aqui de normas e valores de um legado cultural. Ponto inicial importante: quem é o homem romano do qual falaremos? Estaremos analisando o homem nascido livre, o ingenuus.

A virilidade tem papel proeminente na vida do homem romano, dessa maneira, este deveria ter o lugar de dominante e ativo no ato sexual. Resumidamente podemos falar em dois grupos de identidade masculina: o homem livre – que deveria ser o ativo e, portanto, penetrador – e o indivíduo não livre, de status inferior – seria o passivo, o penetrado. A relação sexual entre homens deveria ocorrer contanto entre atores de status sociais diferentes; nisso percebemos a forte influência da hierarquia social no sexo. Neste sentido, as relações de poder estão em jogo constante com o sexo; o poder e suas estratégias na hierarquia social romana ditam a moral, separam o que é permitido e não permitido. É difícil, a partir de nossos valores e padrões sexuais imaginar que no meio social e público era comum e aceito à relação sexual entre dois homens (com a exceção já exemplificada acima), porém, creio que com este trecho ficará mais claro:

Só tinha relações com mulheres, uma coisa incomum no mundo antigo.
Imperador Claudio

“Catulo se vangloria de suas proezas e Cícero cantou os beijos que colhia nos lábios de seu escravo-secretário. De acordo com seu gosto pessoal, cada um optava pelas mulheres, pelos rapazes, ou por umas e por outros. Virgílio preferia exclusivamente os rapazes; o imperador Cláudio, as mulheres; Horácio repete que adora os dois sexos”. (Veyne, 2008)

Virgílio, um dos maiores poetas de Roma

O conteúdo do trecho era encontrado em diversos textos gregos e romanos, ou seja, presente nas representações discursivas. Na Grécia antiga, por exemplo, temos relatos das relações homoeróticas entre os efebos – jovens que tinham recentemente atingido a puberdade – e seus “tutores”. Essa interação era muito criticada pelos autores romanos; não porque eram dois indivíduos do sexo masculino se relacionando, mas porque eram dois indivíduos livres, ou seja, haveria nesse ato um personagem masculino livre agindo de maneira passiva, o que era inaceitável.

cerâmica – pederastia

E o que acontecia com o homem romano livre que fosse passivo na atividade sexual? O homem livre que fosse penetrado sofreria com chacotas e até mesmo poderia ver sua vida política e social irem à ruína, caso isso viesse a público. Os romanos usavam o conceito de stuprum para caracterizar o crime das relações sexuais que eram consideradas indignas. Juridicamente podemos falar da Lex Scatinia, de 149 a.C. que protegia do estupro o adolescente livre e a virgem livre. No exército romano, observamos relatos de crimes militares no qual o indivíduo teria tentado seduzir outro soldado; em muitos desses casos, houve a pena capital para o acusado. Novamente: o problema não era o soldado tentar seduzir outro homem, mas sim um cidadão romano livre, que jamais deveria ser passivo no ato sexual.

Escrevo este texto para mostrar que as relações homoeróticas, que hoje sofrem o preconceito social e até mesmo cultural, através da categorização do indivíduo, na antiguidade eram julgadas e analisadas a partir da hierarquia social. As estruturas de sexualidade e de pensamento são distintas e não podem se associar às nossas. Não incentivo o julgamento de uma sociedade ser mais ou menos homofóbica que a outra, até porque, é um termo moderno que não tem aplicabilidade no mundo antigo. É essencial pensarmos que os valores, as normas e os conceitos mudam de sociedade para sociedade, de tempos em tempos. É anacrônico pensar em heterossexualidade e homossexualidade na antiguidade; como disse, usei o conceito para atentar somente a atividade sexual entre dois homens e para deixar o menos abstrato possível nossa discussão. Imagino a estranheza de um homem, romano e livre, em analisar e categorizar as pessoas de acordo com o gênero de seus parceiros sexuais. A alteridade – entender a qualidade do outro, estado do que é diferente – vem a ser, deste modo, essencial para a questão.

Referências bibliográficas:

FOULCAULT, Michel. A história da sexualidade I – a vontade do saber. Tradução: Maria Thereza da Costa Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. 13ª Edição, Rio de Janeiro: Edições Graal, 1999.

VEYNE, Paul. Sexo e poder em Roma. Tradução: Marcos de Castro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

PINTO, Renato. “O ‘crime’ da homossexualidade no exército e as representações da masculinidade no Mundo Romano”. In: CARLAN, C. U.; FUNARI, P. P. A.; CARVALHO, M. M.; SILVA, E.C.M.(Orgs.). História Militar do Mundo Antigo: Guerras e Cultura. Volume III. São Paulo: Editora Annablume, 2012.

Sejam muito bem-vindas(os)! Meu nome é Rodrigo Castilho e tenho 22 anos. Sou movida por conhecer coisas novas e pelo desejo de ver um mundo com mais igualdade, representatividade e aceitação da diversidade. Como graduanda em filosofia e colunista do EducaHelp, felicito a todas e todos que são amigas(os) do saber [filósofas(os)].
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Rodrigo Castilho

Sejam muito bem-vindas(os)! Meu nome é Rodrigo Castilho e tenho 22 anos. Sou movida por conhecer coisas novas e pelo desejo de ver um mundo com mais igualdade, representatividade e aceitação da diversidade. Como graduanda em filosofia e colunista do EducaHelp, felicito a todas e todos que são amigas(os) do saber [filósofas(os)].

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