Discussões sobre a Origem da Filosofia e o Racismo Epistêmico – parte II

 

“A chibata só foi trocada por uma prancheta

E esses grilhões a caneta não arrebenta”

Graças ao Arauto (Preta Rara)

Amigas e Amigos Filósofas(os), neste texto faremos uma complementação das análises feitas sobre dois temas: 1) A Origem da Filosofia; 2) O racismo epistêmico. Este texto maior dialoga com nossos anteriores, que podem ser acessados nos links abaixo:

Renato Noguera e a Filosofia Afroperspectivista
O Drible é Negro
Um Corpo com História
Silenciamento e Deslegitimação: Interações concretas e simbólicas na Construção da Opressão.
Discussões sobre a Origem da Filosofia e o Racismo Epistêmico
A Formação do Povo Brasileiro (parte II): Os Afrodescendentes

  1. Introdução

Abordaremos neste trabalho a questão da origem da filosofia e como a defesa da legitimidade da filosofia africana contra-argumenta a posição hegemônica. Serão articulados argumentos à favor de uma filosofia de nascimento grego frente ao trabalho de Renato Noguera. Os conceitos e problemas trazidos por este autor nos guiarão em nossa questão e mostraremos que o racismo epistêmico é um elemento central neste debate. Por fim, apresentaremos algumas ideias centrais da Filosofia Afroperspectivista.
No livro História da Filosofia vol.I (1999), Dario Antiseri e Giovanni Reale afirmam que a filosofia tem origem grega e contestam a existência de outras filosofias anteriores a essa.

Naturalmente, sobretudo os orientalistas, não faltaram tentativas de situar no Oriente a origem da filosofia, especialmente com base na observação de analogias genéricas constatáveis entre as concepções dos primeiros filósofos gregos e certas ideias próprias da sabedoria oriental. Todavia nenhuma dessas tentativas teve êxito. Já a partir de fins do século dezenove, a crítica rigorosa produziu uma série de provas verdadeiramente esmagadoras contra a tese de que a filosofia dos gregos tivesse derivado do Oriente. (2003, p.4)

A mesma origem é apontada por Danilo Marcondes no livro Iniciação à História da Filosofia: dos Pré-socráticos a Wittgenstein (2001):

Um dos modos talvez mais simples e menos polêmicos de se caracterizar a filosofia é através de sua história: forma de pensamento que nasce na Grécia antiga, por volta do séc. VI a.C. De fato, podemos considerar tal caracterização praticamente como uma unanimidade, o que costuma ser raro entre os historiadores da filosofia e os especialistas na área.(2001, p.9)

A julgar pelos trechos aqui apresentados, parece-nos que temos poucos motivos para duvidar de uma filosofia com origem grega. Porém, contra a crítica rigorosa, as provas esmagadoras e a unanimidade dos especialistas apresentaremos a posição de Renato Noguera. No livro O Ensino de Filosofia e a lei 10.639 (2014), o autor cita nomes que corroboram uma crítica à posição anterior (filosofia de origem grega):

Destaca-se o fato de que Cheik Anta Diop (1954, 1967, 1977), George James (2005), Molegi Asante (2000), Theóphile Obenga (1990, 1992, 2004), Mogobe Ramose (2011) e José Nunes Carreira (1994) convergem em favor da tese de que temos textos de Filosofia africana, assim como de outras regiões do mundo, bem anteriores aos textos gregos que são reconhecidos pela historiografia ocidental como sendo dos primeiros filósofos.(2014, p.12-3)

Nossa próxima seção desenvolverá algumas das diferentes perspectivas que corroboram o debate no que diz respeito à nossa questão.

  1. Sobre a Origem da Filosofia

Iniciaremos pelo livro de Pierre Hadot, O que é Filosofia Antiga?. Nele, Hadot defende que a filosofia é, antes de tudo, uma maneira de viver e ao mesmo tempo discurso. Estes tendem para a sabedoria sem jamais atingi-la. A filosofia, então, “não é senão o exercício preparatório para a sabedoria.”  Exercício que consiste em práticas físicas ou intuitivas.
Quanto à origem da filosofia, Hadot defende que este conjunto de práticas é um fenômeno histórico de início grego.

Se agora falamos de “filosofia” é porque os gregos inventaram a palavra philosophia, que significa “amor pela sabedoria”, e porque a tradição da philosofia grega foi transmitida à Idade Média e posteriormente aos tempos modernos. Trata-se de apropriar-se do fenômeno em sua origem, sempre tendo consciência de que a filosofia é um fenômeno histórico que teve início no tempo e evoluiu até nossos dias.(1999, p.16)

Renato Noguera, por sua vez, aponta que a palavra “rekehet”, do egípcio antigo, remete ao que o Ocidente chamou de “filosofia”. Rekehet era uma arte de caráter inconcluso, a arte da palavra bem-feita. Também traduzida por “arte da palavra em busca da verdade”, era uma atividade intelectual ensinada nas escolas de escribas. Este exemplo vem em favor de Noguera ao argumentar que temos textos de Filosofia africana, assim como de outras regiões do mundo, bem anteriores aos textos gregos que são reconhecidos pela historiografia ocidental como sendo os primeiros filósofos.
Pode-se objetar que a filosofia é grega por conta do surgimento da palavra philosofia. Porém, o próprio Hadot aponta:

“É quase certo que os pré-socráticos dos séculos VII e VI a.C., Xenófanes ou Parmênides por exemplo, e mesmo provavelmente – apesar de certos testemunhos antigos porém muito discutíveis -, Pitágoras e Heráclito, não conheceram o adjetivo philosophos nem o verbo philosophein (filosofar) tampouco, com mais forte razão, a palavra philosophia. Essas palavras, com efeito, segundo toda versossimilhança, só apareceram no século V, no qual Atenas brilha ao mesmo tempo por sua preponderância política e por seu esplendor intelectual,[…]” (1999, p.35-6)

Seria contraditório, baseando-nos exclusivamente no argumento etimológico, negar a filosofia egípcia antiga por conta da criação grega da palavra philosofia, mas atribuir o “título” de filósofo à Pitágoras, por exemplo. Noguera também aponta que Pitágoras, Anaximandro, Anaxímenes e Tales de Mileto teriam estudado no Egito. Sendo os preceitos da Escola Pitagórica muito semelhantes às da Escola filosófica no antigo Egito, ele questiona: “por que desconsiderar essas heranças?”
Recorremos novamente a Pierre Hadot, que aponta a filosofia encarada pelos atenienses no século V como orgulho do interesse pela ciência e pela cultura florescente. O orador Isócrates, ainda no século V, teria dito: “Foi Atenas que revelou ao mundo a filosofia.” Por outro lado, Noguera apoia-se nos estudos de Carlos Moore para defender que o racismo antinegro estava presente na Antiguidade entre Gregos e Romanos. Vamos no mesmo sentido quanto à afirmação de Aristóteles na obra Fisionomia:

“Aqueles que são muito negros são covardes, como, por exemplo, os egípcios e os etíopes. Mas os excessivamente brancos também são covardes, como podemos ver pelo exemplo das mulheres; a coloração da coragem está entre o negro e o branco.” (2010, p.13)

Parece-nos que, antes de uma questão sobre a criação da palavra philosofia, é mais plausível pensar em uma negação, já presente nos gregos, das contribuições culturais e intelectuais dos povos africanos.
Noguera vai além, ao ver a filosofia como rótulo de maior status no humanismo ocidental. Vemos com Ramose que a dúvida sobre a existência da filosofia africana é expressa sob o disfarce da ciência e do profissionalismo. Pois “o significado da filosofia têm como base e reflete a perspectiva daqueles que exercem poder sobre os outros(…)”, incluindo poder intelectual. Ele destaca o processo de colonização fundado na “redução à escala de menos humanos” dos não-europeus. Neste sentido, “a dúvida sobre a existência da filosofia africana é, fundamentalmente, um questionamento acerca do estatuto ontológico de seres humanos do africanos”.
Neste ponto reside um dos argumentos centrais na defesa de Noguera da filosofia africana. É importante sustentar a validade da filosofia africana contra o racismo e reivindicar “o que há de mais importante, mais difícil e mais fundamental na tradição do Ocidente.”
Desenvolveremos esta parte com base no conceito racismo epistêmico: categoria assumida pelo racismo ao desqualificar e invisibilizar os saberes tradicionais e as produções intelectuais de povos não europeus.

Aqui, racismo epistêmico remete a um conjunto de dispositivos, práticas e estratégias que recusam a validade das justificativas feitas a partir de referenciais filosóficos, históricos, científicos e culturais que não sejam ocidentais. Em outras palavras, o projeto epistemológico moderno estabeleceu critérios para distinguir o que é conhecimento válido do que não é conhecimento. Com isso, o conhecimento gestado dentro de um desenho geopolítico ocidental é privilegiado em relação aos outros. (2014, p.27)

Noguera analisa a ideia disseminada de que um povo “não-sofisticado” seria incapaz de fazer filosofia, sendo esta uma atividade sofisticada. A colonização reduziu os saberes dos povos colonizados à categoria de crenças ou pseudosaberes, quando lidos de uma perspectiva eurocêntrica. Indo além, os povos negros foram interpretados pelos europeus como criaturas sem alma, animalizados, tomados como coisas. Enquanto “bárbaros”, os negros seriam sem “filosofia”.

Outra objeção às produções filosóficas não ocidentais está na deslegitimação da oralitura. Contra tal, por um lado, lembramos da apresentação de textos filosóficos anteriores aos clássicos Gregos. Por outro, Noguera concorda com o Omoregbe que as reflexões filosóficas de um povo são preservadas através da religião, de mitos, aforismos, máximas de sabedoria, provérbios tradicionais, contos, etc., e defende que “a oralidade e a escrita não devem ser vistas como opostas ou dentro de uma hierarquia, mas como equivalentes.” Tais formas de preservação são partes necessárias das reflexões filosóficas que recolocam a África como um continente intelectualmente produtivo.

Estamos de acordo com Noguera e vemos que não considerar a existência da Filosofia Africana é uma tentativa de desumanização dos Africanos por meio do racismo epistêmico. Este, estabeleceu-se por meio de um assassinato das maneiras de pensar e agir dos africanos e da geração de uma tensão na relação entre as filosofias africana e ocidental na África. É importante lembrar que tal processo, chamado epistemicídio, foi incapaz de eliminar as maneiras de conhecer e agir dos povos conquistados.

Veremos na próxima seção alguns dos fundamentos do que Noguera chamou de filosofia Afroperspectivista, como um esforço de traçar uma perspectiva que resiste ao epistemicídio.

  1. Filosofia Afroperspectivista

Iniciamos com a proposta de que uma filosofia afroperspectivista permitiria a consideração das perspectivas não-europeias, procurando desfazer hierarquizações. Ela exige o deslocamento do Ocidente, tirando-o do centro. “Tirar do centro” tem um sentido geopolítico. Em seu significado mais corrente, geopolítica “envolve a gerência do Estado sobre os territórios e as disputas por hegemonia através da expansão em vários domínios, incluindo o cultural.” Quando o sujeito de enunciado é marcado em seu lugar epistêmico, étnico-racial, de gênero espiritual, sexual, etc., um discurso filosófico em um campo neutro de forças perde sentido. Vemos uma filosofia que parte do que Noguera denomina de forças “afrodiaspóricas, afrobrasileiras, afrodescendentes, isto é, afroperspectivistas.” O devir negro e os afetos africanos e afrodiaspóricos apontam ambos para um território fora do centro.

O que aqui denominamos filosofia afroperspectivista é uma maneira de abordar as questões que passam por três referenciais: 1ª) quilombismo, 2ª) afrocentricidade; 3ª) perspectivismo ameríndio. A formulação política do quilombismo de Abdias do Nascimento e alguns aspectos da formulação intelectual feita por Molefi Asante, articulados com certas questões suscitadas pela etnologia amazônica de Eduardo Viveiros de Castro, são as fontes do que denomino filosofia afroperspectivista. (2014, p.46)

O método usado por Noguera para traçar a filosofia afroperspectivista foi baseado  em Deleuze e Guattari: “a filosofia sempre precisa de um plano de imanência, personagens conceituais, problemas e conceitos que lhe dizem respeito”. Dentre os diversos personagens conceituais afroperspectivistas temos, por exemplo: o griot, a mãe de santo, o pai de santo, o(a) angoleiro(a), a(o)feiticeira(o), a(o) bamba, o(a) jongueiro(a), o zé malandro, o vagabundo, orixás (Exu, Ogum, Oxóssi, Oxum, Iemanjá, Oxala etc.), voduns (Dambirá, Sapatá, Heviossô etc). Já entre os conceitos afroperspectivistas: denegrir, vadiagem, drible, mandinga, enegrecimento, roda, cabeça feita, corpo fechado, etc.
Noguera aponta os problemas aos quais os conceitos dizem respeito, tais como: (a) Por que o Ocidente é o berço da filosofia?, (b) O que uma filosofia incorporada e dançarina tem a dizer para uma proposta de educação que se orienta a partir de uma desvalorização do corpo?, (c) Como conceber o “direito” de uma filosofia afroperspectivista, se os cânones seriam estrangeiros?
Entre os intercessores, citamos os exemplos: capoeira, o samba, o zungu, a quilombagem, a vadiagem, o jongo, a congada, o pagode, o candomblé, etc.” Noguera dá especial atenção à Exu, deus do acontecimento, como intercessor. O orixá capaz de arremessar uma pedra hoje que atingiu um pássaro ontem, intercessor que representa uma imagem do pensamento que se situa fora dos desígnios da representação.
Noguera associa a imagem do pensamento fora da representação com a manutenção do movimento. Dessa maneira, o pensamento não busca uma representação da verdade única e universal, mas movimentar-se por perspectivas.

A filosofia afroperspectivista está assentada sobre uma imagem do pensamento que pode ser apresentada em três teses básicas: 1ª Pensar é movimentação, todo pensamento é um movimento que ao invés de buscar a Verdade e se opor ao falso, busca a manutenção do movimento; 2ª) O pensamento é sempre uma incorporação, só é possível pensar através do corpo; 3ª) A coreografia e o drible são os ingredientes que tornam possível alcançar o alvo do pensamento: manter a si mesmo em movimento. (2011, p.6)

Já o plano de imanência da filosofia afroperspectivista é a afroperspectividade, que consiste “numa experiência esotérica, num estado de transe, numa possessão divina. O que é peculiar nesta experiência esotérica são os conjuntos de transes, as possessões.” Tal experiência só pode dar-se na terra. Ao pensar na ancestralidade como as vísceras da terra, esta torna-se um elemento chave, impedindo a cisão entre natureza e cultura. A ancestralidade liga as perspectivas de matriz africana da afroperspectividade.

  1. Conclusão

Procuramos trabalhar a questão da origem da filosofia, e percebemos a importância de situar geopoliticamente o sujeito que determina “o que é a filosofia” e “onde/quando ela surgiu”. Dentre as relações de forças envolvidas na questão, o racismo epistêmico ocupa lugar central, inviabilizando perspectivas não-eurocêntricas e contribuindo para que a cultura, os saberes e os modos de viver dos povos africanos sejam esquecidos. Com as formulações de Deleuze e Guattari, Noguera mostrou que elementos tradicionais e culturais dos africanos podem desempenhar funções centrais em um sistema filosófico e que para compreender tais elementos é necessário considerar os materiais escritos, a oralitura, a religiosidade e os costumes africanos e afrodiaspóricos.

Referências:

Giovanni, Reale. História da filosofia: filosofia pagã antiga, v.1. Trad, Ivo Storniolo. São Paulo, 2003.

HADOT, Pierre. O que é filosofia antiga? Trad. Dion Davi Macedo. Edições Loyola:São Paulo, Brasil, 1999

História geral da África, II: África antiga / editado por Gamal Mokhtar. – 2.ed. Brasília : UNESCO, 2010.

MARCONDES, Danilo. Iniciação à história da filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.

NOGUERA, Renato. A ética da serenidade: o caminho da barca e a medida da balança na filosofia de Amen-em-ope. Ensaios Filosóficos, Volume VIII – Dezembro/2013

NOGUERA, Renato. Denegrindo a Filosofia: O pensamento como coreografia de conceitos afroperspectivistas. Griot – Revista de filosofia: Amargosa, BA. v.4, n.2, 2011.

NOGUERA, Renato. O ensino de filosofia e a lei 10.639. Rio de Janeiro: Pallas: Biblioteca Nacional, 2014.

Sejam muito bem-vindas(os)! Meu nome é Rodrigo Castilho e tenho 22 anos. Sou movida por conhecer coisas novas e pelo desejo de ver um mundo com mais igualdade, representatividade e aceitação da diversidade. Como graduanda em filosofia e colunista do EducaHelp, felicito a todas e todos que são amigas(os) do saber [filósofas(os)].
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Rodrigo Castilho

Sejam muito bem-vindas(os)! Meu nome é Rodrigo Castilho e tenho 22 anos. Sou movida por conhecer coisas novas e pelo desejo de ver um mundo com mais igualdade, representatividade e aceitação da diversidade. Como graduanda em filosofia e colunista do EducaHelp, felicito a todas e todos que são amigas(os) do saber [filósofas(os)].

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