Ensinamentos sobre Filosofia Africana na Antiguidade

Ensinamentos sobre Filosofia Africana na Antiguidade

Amigas e Amigos Filósofas(os), este texto é de autoria do nosso colunista convidado José Victor, aluno de graduação em Filosofia na Unicamp e meu colega do GEFAA (Grupo de Estudos de Filosofias Africanas e Afrodiaspóricas).


Quando se pensa em Filosofia Antiga, a ideia de filósofos da Grécia, como Platão, Sócrates, Aristóteles, entre outros, costuma ser a única possível, como se só os gregos fizessem filosofia. Porém, houve muitas outras filosofias na antiguidade. Logo, me interessa apresentar uma dessas filosofias não-ocidentais: a filosofia de Amenemope, um filósofo africano pouquíssimo conhecido, que viveu há muitos anos atrás no Antigo Egito (Norte da África). O filósofo egípcio Amenemope viveu centenas de anos antes dos mais antigos filósofos gregos conhecidos, como Pitágoras. Por isso, a ideia do senso comum segundo a qual a filosofia “nasceu” na Grécia é falsa. Na verdade, a filosofia não pode ser dita como sendo a criação ou a invenção de nenhum povo, porque faz parte da própria experiência humana e, assim, onde existem humanos existe filosofia. Portanto, desde a antiguidade, todos os povos produziram suas filosofias, não só os povos da Europa, mas também os povos das Américas, Oceania, Ásia e África.

Amenemope foi o filho de um escriba1 que, além de atuar como supervisor dos campos de cereais, também recebeu sua formação de escriba. Devido sua condição social privilegiada, ele pôde se dedicar aos estudos de escritas egípcias e à filosofia. Assim como os filósofos gregos antigos, Amenemope se preocupou em formular exercícios espirituais. Sem conotação religiosa, esses exercícios espirituais representam um conjunto de atividades e práticas para a produção de um modo de vida virtuoso. Sendo assim, a expressão “exercícios espirituais” nos permite pensar em uma atividade que é, ao mesmo tempo, escolha e formulação de um modo de viver no mundo. Em outras palavras, não se trata de um discurso separado da realidade, mas de uma orientação existencial que requer transformação de quem pratica a atividade filosófica. Essa abordagem se diferencia da posição de outros filósofos ao longo da história, que reduzem a filosofia à mera produção de discursos técnicos para representar um sistema filosófico. Por outro lado, a concepção de filosofia como discurso inseparável da prática era predominante na antiguidade, nas filosofias egípcias, nas filosofias gregas, dos estoicos, dos epicuristas, e nas filosofias budistas de países asiáticos. Da mesma forma, entre essas, a filosofia de Amenemope, por meio de sua ética da serenidade, refletiu sobre modos de vida que, para além do discurso, alcancem verdade, justiça, harmonia e equilíbrio.

O filósofo brasileiro Renato Noguera (UFRRJ), em seu artigo Amenemope, o coração e a filosofia, ou, a cardiografia (do pensamento), discute a respeito dos principais aspectos dos exercícios espirituais da filosofia antiga: a atenção, atitude de vigilância contínua e ininterrupta de si mesmo, fornecendo a concentração adequada no momento presente, permitindo que a compreensão do que está fora ou dentro do nosso alcance; a meditação, atitude de estar de prontidão para acontecimentos aparentemente desagradáveis que escapam ao nosso controle, se concentrando somente naquilo que podemos deliberadamente modificar e intervir, e desfazendo o pavor e a ansiedade diante das coisas que não podemos controlar; a efetivação do aprendizado, fortalecendo a precisão dos estudos através de leitura, audição, pesquisa e exame aprofundado; e exercícios ativos para criar, desenvolver e assegurar hábitos indispensáveis para saúde do espírito, como o domínio de si, a realização dos deveres, a indiferença às coisas indiferentes. A seguir, ao tratar dos ensinamentos de Amenemope, encontraremos esses mesmos aspectos na sua formulação de exercícios espirituais, cujo interesses intelectuais também estiveram na produção de um discurso alinhado à prática para alcançar o bem viver.

O objetivo do filósofo Amenemope quando escreveu seus Ensinamentos2 (aproximadamente 1.300 a.E.C.) foi “ensinar uma arte que consiste num conjunto de técnicas que possam fazer do discípulo atento uma geru maa (pessoa verdadeiramente serena), alguém capaz de examinar seu próprio coração e dizer a verdade sobre si”3. Para a tradição egípcia, o coração é a própria sede do pensamento, das ações e do caráter. Assim, após a morte, segundo a narrativa mítico-religiosa, “o coração é posto na balança de Maat (deusa da verdade, harmonia e equilíbrio) que coloca a pena de íbis para mensurar se o coração é leve suficiente para abrir passagem para uma vida justa e feliz”, e o veredicto é do deus Osíris 4. Portanto, para atingir o estágio de geru maa e alcançar uma vida justa e feliz após a morte, a pessoa deve realizar o exame do próprio coração.

Renato Noguera denomina esse exame ou inspeção do coração como cardiografia filosófica. Nas palavras de Noguera, “cardiografar quer dizer fazer que as palavras que passem pelo coração sejam equilibradas, harmônicas, isto é, tenham o mesmo “peso” da verdade”5. A cardiografia, que apresenta um “conjunto de técnicas, atitudes e precauções metodológicas”, envolve cinco provisões para cultivo da vida serena: I) Audição atenta do próprio coração; II) Leitura dos ensinamentos (filosóficos) dos que vive(ra)m atentos ao próprio coração; III) Pesquisa do coração através das palavras ( pois os vestígios do que está no ventre [lugar onde a cólera e o orgulho são gerados] passa pelo coração e fica nas palavras); IV) Exame cuidadoso daquilo que as palavras do “homem inflamado” dizem; V) Firmeza e caráter resoluto no/do coração. Desse modo, as cinco provisões (audição, leitura, pesquisa, exame e firmeza) servem como técnicas para ajustar as ações, os pensamentos, os desejos e o caráter com a verdade, o equilíbrio e a harmonia. Se o desejo se alinha com a verdade, o pensamento orienta as ações no caminho correto para serenar o caráter. Por isso, “a serenidade é o porto de chegada da caminhada filosófica”6. Para Amenemope, “o coração humilde deseja apenas o que depende de suas próprias forças”7. Portanto, isso não significa que o pensamento deve se afastar do desejo, mas, ao contrário, se deve articular o pensamento com o desejo enquanto o desejo se aproxima da verdade, para se alcançar a serenidade.

Podemos criticar se a condição social de Amenemope como escriba não influenciou que sua filosofia discursasse a respeito de um modo de vida sob aceitação da realidade, uma vez que a sua realidade era muito mais “aceitável” do que aquela dos trabalhadores escravizados. Será que os obstáculos e adversidades da vida são os mesmos para todas as pessoas, independentemente da sua condição social, econômica, de gênero, sua sexualidade, sua cor? Por que o humilde é associado ao pobre? Em que medida a humildade como aceitação da pobreza não ajuda a perpetuar a própria pobreza? Em outra medida, não devemos, ao mesmo tempo, aceitar a realidade como ela é, com seus obstáculos e adversidades, enquanto desejamos e buscamos transformá-la na medida do possível?

Bibliografia

NOGUERA, Renato. Amenemope, o coração e a filosofia, ou, a cardiografia (do pensamento): 2014.

NOGUERA, Renato. A ética da serenidade: O caminho da barca e a medida da balança na filosofia de Amen-em-ope: 2013.

1 No Egito Antigo, os escribas, provenientes de famílias egípcias ricas e poderosas, tinham uma importante função e ocupavam lugar de destaque na sociedade egípcia. Conheciam diferentes tipos de escritas egípcias. Normalmente, eles eram funcionários reais e trabalham diretamente com os sacerdotes e com o Faraó. Os escribas usavam o papiro para escrever dados e textos ou registravam nas paredes internas das pirâmides. Quem exercia a função de escriba era responsável por escrever sobre a vida dos faraós e sobre os acontecimentos do Egito, redigir documentos administrativos e as leis, copiar textos sagrados e registrar a cobrança de impostos.

2 Os 30 capítulos dos Ensinamentos de Amenemope estão disponíveis na íntegra no Papiro 1074 do Museu Britânico.

3 NOGUERA, p.5.

4 NOGUERA, p.6.

5 NOGUERA, p.6-7.

6 NOGUERA, p.7.

7 NOGUERA, p.8.

Sejam muito bem-vindas(os)! Meu nome é Rodrigo Castilho e tenho 22 anos. Sou movida por conhecer coisas novas e pelo desejo de ver um mundo com mais igualdade, representatividade e aceitação da diversidade. Como graduanda em filosofia e colunista do EducaHelp, felicito a todas e todos que são amigas(os) do saber [filósofas(os)].
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Rodrigo Castilho

Sejam muito bem-vindas(os)! Meu nome é Rodrigo Castilho e tenho 22 anos. Sou movida por conhecer coisas novas e pelo desejo de ver um mundo com mais igualdade, representatividade e aceitação da diversidade. Como graduanda em filosofia e colunista do EducaHelp, felicito a todas e todos que são amigas(os) do saber [filósofas(os)].

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