Freud e a Homossexualidade

 

Sigmund Freud

Amigas e amigos filósofas(os), nesta semana daremos continuidade ao estudo de alguns conceitos de Sigmund Freud. Este texto usa conceitos tratados anteriormente em Freud e os Desafios da Educação. Primeiramente, qual nosso objetivo com este estudo?

A resposta é uma educação alternativa que se desprenda de um dos grandes problemas da educação tradicional. Ao tratar principalmente de autores de outras realidades sociais e de forma isolada, a educação tradicional dificulta que o aluno veja a relação entre as disciplinas e as questões atuais. Tentaremos, então, ver como a teoria de Freud dialoga com debates feitos hoje em dia.

Vimos que para Freud a relação entre sexualidade e aprendizagem é estreita. Desta maneira, acreditamos que a educação deve também tratar de temas que, muitas vezes, são evitados pela educação tradicional. Assim, veremos neste texto como Freud aborda a homossexualidade. Ficará claro que muitas ideias propostas por ele ainda não foram incorporadas no imaginário brasileiro sobre a sexualidade.

É importante esclarecer (ou denegrir, de acordo com a ressignificação vista em Renato Noguera e a Filosofia Afroperspectivista) que tal imaginário oprime toda a comunidade LGBTQ+. O foco será na homossexualidade, pois Freud abordou este tema de maneira mais direta.

Começaremos, então, vendo alguns exemplos que ilustram o imaginário citado.

O primeiro exemplo será uma fala feita pelo cantor e youtuber Leonardo Schulz (Léo Stronda). Segundo ele, em um vídeo do canal Fábrica de Monstros, sexo anal não seria ‘transar’. E ainda adverte um internauta sobre a homossexualidade: “Cuidado que isso aí é hereditário, é coisa de família”.

Outro exemplo pode ser tirado de um dos debates para as eleições presidenciais de 2014. Vejamos um trecho:

“[…] Os homossexuais, travestis, lésbicas, sofrem uma violência constante. O Brasil é o campeão de mortes da comunidade LGBT. Por quê é que as pessoas que defendem tanto a família, se recusam a reconhecer como família um casal do mesmo sexo?” (Luciana Genro)

“[…]Olha, minha filha, tenho 62 anos. Pelo que eu vi na vida, dois iguais não fazem filho. E digo mais, desculpa, mas aparelho excretor não reproduz. […]” (Levy Fidelix)

Aqui aparecem elementos que podemos destacar do imaginário brasileiro sobre homossexualidade. Na fala do Léo Stronda vemos a relação entre homossexualidade e sexo anal, seguida da afirmação de que esta forma de relação sexual não é transar. Outro ponto, é a ideia de que homossexualidade seria hereditária. Um dos motivos da escolha dessa fala é que elas refletem uma série de opiniões que dominaram os estudos sobre homossexualidade durante muito tempo. Vejamos um exemplo:

O advogado e teólogo alemão Carl Heinrich Ultichs (1826-1895) afirmou que a homossexualidade era uma anomalia hereditária que produzia uma ‘alma de mulher em um corpo de homem’.

A respeito do sexo anal. É a ele que Levy Fidelix refere-se, ao ser questionado sobre aceitação da família de casais do mesmo sexo. Novamente aparece a relação entre homossexualidade e sexo anal. Esta ideia já era presente nos tempos de Freud. Sobre isto, o psicanalista afirma, em Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade, que de modo algum a relação sexual ‘per anum’ (sexo anal) coincide com a homossexualidade. Primeiramente, não há nada que garantiria tal interesse em se manifestar para todos os homossexuais. Ademais, ele observa a mesma meta sexual em heterossexuais.

Vamos tentar entender melhor o que fundamenta a relação apresentada nos exemplos entre homossexualidade e determinadas práticas sexuais.

O termo homossexualidade foi criado em 1860. Até então, os termos dominantes na medicina variavam entre ‘sodomitas’, ‘invertidos’, ‘doentes mentais’, ‘perversos’, entre outros. Estes nomes diferenciavam as relações homoeróticas em função de uma sexualidade normal. As condutas sexuais que não levassem à preservação da espécie eram tidas por perversas. Freud adotou também este referencial, chamando os homossexuais de invertidos.

“Considera-se como alvo sexual normal a união dos genitais no ato designado como coito, que leva à descarga da tensão sexual e à extinção temporária da pulsão sexual (uma satisfação análoga à saciação da fome).”(Freud, Obras Completas vol. VII, p.92)

O mesmo imaginário está presente na fala de Levy. Já em Freud, veremos adiante que ele utiliza-se dos termos comuns para desmistificá-los.

O psicanalista aponta que os médicos costumavam atribuir à homossexualidade um caráter de degeneração, ou doença. O mesmo ocorreu com as chamadas perversões (masoquismo, sadismo, etc.). Quanto às perversões, ele afirma que toda sexualidade normal é composta por elementos perversos. Segundo ele, “[…] essa universalidade basta, por si só, para mostrar quão imprópria é a utilização reprobatória da palavra perversão.” (Freud, Obras Completas vol. VII, p.99)

Quanto à chamada ‘inversão’, esta estaria presente em todas as pessoas heterossexuais, mesmo que de forma inconsciente. Portanto, a teoria freudiana vê perversões e inversão como aspectos que constituem toda sexualidade humana. Dessa maneira, a heterossexualidade também deveria ser uma questão a ser entendida, tanto quanto a homossexualidade. Essas duas orientações não teriam nenhuma diferença em si.

Amigas(os) filósofas(os), que tal vermos mais alguns conceitos em que Freud baseia suas opiniões?

O primeiro conceito que veremos será Pulsão. A partir de um estímulo em um órgão do corpo (fonte da pulsão), ela seria uma representante da forma com que o corpo suprimi tal estímulo. A supressão é o alvo imediato da pulsão, não tendo objeto fixo. Ela expressa-se tanto de forma ‘normal’, como de forma ‘perversa’. Segundo o psicanalista Paulo Roberto Ceccarelli (2008), a teoria das pulsões de Freud faz com que o conceito de normalidade apresente-se como uma ficção.

Freud percebeu a imposição cultural de uma forma de sexualidade. A pulsão deveria manter-se em um modo único e universal de circulação para ser encarada como normal. Porém, ele afirma que a sexualidade escapa a qualquer tentativa de normalização.

Assim, Freud propõe uma independência da sexualidade sobre os órgãos sexuais. Para ele, a finalidade sexual é o prazer. Já a reprodução, uma meta secundária.

A noção apresentada é fundamental para a proposta de Freud de uma bissexualidade originária.

Ele observa as manifestações sexuais na infância e em diferentes períodos da história. Nos casos observados, após a puberdade, entusiasmos homossexuais seriam percebidos em ambos os sexos. Já nos povos antigos, ele percebeu atitudes homoeróticas como um fenômeno frequente, muitas vezes dotadas de funções para a comunidade. Assim, a forma como elas eram vistas baseava-se em aspectos histórico-culturais e não na natureza humana. Como a pulsão sexual não dependeria do gênero de seu alvo, ele propõe uma bissexualidade originária.

Caras e caros, aqui somos obrigados a fazer uma pausa na teoria de Freud e levantar algumas questões sobre seu método. Após o início da colonização europeia, muitos teóricos europeus passaram a procurar em sociedades ‘menos desenvolvidas’ a natureza humana. A hipótese é a de que os povos antigos, ou colonizados, teriam sido menos alterados pela ‘civilização’. Esta concepção é atualmente considerada ultrapassada. Para discutir as relações homoeróticas na antiguidade, contamos com as contribuições do colunista convidado Julio Capelupi. Veremos seu texto As Representações Homoeróticas na Antiguidade Greco-Romana. Nele, Capelupi apontou a importância de percebermos que as relações sexuais têm significados diferentes em cada cultura. A forma utilizada por Freud de procurar em outras culturas entender a homossexualidade pode ser vista como anacrônica (o termo anacronismo é trabalhado neste texto). Vale a discussão.

Voltemos à bissexualidade proposta por Freud.

A heterossexualidade e a homossexualidade dependeriam de uma repressão da bissexualidade. A forma como isso se dá varia com o meio em que cada pessoa está inserida.

É importante ressaltar que denominações como heterossexualidade e homossexualidade são vistas por Freud como construções culturais. Porém a libido oscilaria em todos nós entre objetos masculinos e femininos, mesmo que de forma inconsciente.

Freud também traz outra discussão importante e ainda atual. Para ele, a bibliografia sobre a homossexualidade teria confundido três características distintas e independentes entre si até certo grau.

1 – Características somáticas (físicas);

2 – Característica sexual psíquica (identificação feminina/masculina); e

3 – Escolha do objeto sexual;

Os estudos, para ele tendenciosos, destacavam as condutas do terceiro ponto e exageravam a relação direta entre este e os outros.

Vejamos uma ilustração das relações entre as características citadas por Freud. Contamos com uma contribuição do colunista convidado Henrique Hokamura. O texto LGBTQ+: Pra quê tanta sigla? apresenta uma explicação sobre identificações que variam de acordo com as características citadas. As pessoas que se identificam com seu gênero de nascença (cisgênero) eram enquadradas como normais. Desta forma, os outros casos foram tachados como anormais. O mesmo em relação às orientações não-heterossexuais.

Pedimos desculpas às leitoras e aos leitores. Foi um texto mais extenso do que o costume e com muitos conteúdos. Porém, a complexidade do assunto e a importância da questão exigiram isso. Vimos que o imaginário dominante é fonte de muitas visões problemáticas sobre a homossexualidade. Mas, como esse imaginário também pode agir dentro da própria comunidade LGBTQ+? Hokamura também nos ajuda a elucidar essa questão no texto Opressão do Oprimido.

Revisão: Luisa I. Moyses.

Referências Bibliográficas:

Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. VII.

disponível em:

http://conexoesclinicas.com.br/wp-content/uploads/2015/01/freud-sigmund-obras-completas-imago-vol-07-1901-1905.pdf

FREUD, Sigmund. Sobre a Psicogênese de um Caso de Homossexualidade Feminina(1920). In: Obras completas, v.15: psicologia das massas e análise do eu e outros textos(1920-1923). São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

CECCARELLI, Paulo. A invenção da Homossexualidade. Bagoas, V.2, n.2, p.71-93, 2008.

MARQUES, Luciana. As homossexualidades na Psicanálise. Trivium, n.1, p.467-484, 2010.

Sejam muito bem-vindas(os)! Meu nome é Rodrigo Castilho e tenho 22 anos. Sou movida por conhecer coisas novas e pelo desejo de ver um mundo com mais igualdade, representatividade e aceitação da diversidade. Como graduanda em filosofia e colunista do EducaHelp, felicito a todas e todos que são amigas(os) do saber [filósofas(os)].
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Rodrigo Castilho

Sejam muito bem-vindas(os)! Meu nome é Rodrigo Castilho e tenho 22 anos. Sou movida por conhecer coisas novas e pelo desejo de ver um mundo com mais igualdade, representatividade e aceitação da diversidade. Como graduanda em filosofia e colunista do EducaHelp, felicito a todas e todos que são amigas(os) do saber [filósofas(os)].

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