Freud e os Desafios da Educação

Amigas e amigos filósofas(os), veremos hoje alguns conceitos de Sigmund Freud (1856-1939). Fundador da psicanálise, suas teorias têm grande importância em muitas áreas. A psicologia e a filosofia não foram mais as mesmas após seu trabalho.

Na educação não poderia ser diferente. Portanto, veremos alguns de seus conceitos e faremos alguns questionamentos a respeito de sua aplicação dentro da área.

Em seu texto Algumas Reflexões Sobre a Psicologia Escolar, ele traz a primeira grande questão que nos interessa:

“[…] é difícil dizer se o que exerceu mais influência sobre nós e  teve importância maior foi a nossa preocupação pelas ciências que nos eram ensinadas, ou pela personalidade de nossos mestres.”

Amiga(o) leitora(or), você se lembra de sua professora(or) favorita(o)? Qual influência essa figura teve na sua vida? Qual sua relação com a disciplina ensinada por ela(ele)?

A primeira noção que trataremos será o Inconsciente.

A premissa básica da psicanálise é a existência do inconsciente. Desta forma, a essência do psíquico de uma pessoa não está na consciência. A consciência é uma qualidade do psíquico. Para Freud, muitas ideias são expulsas do consciente por meio de uma repressão. Ou seja, um pensamento consciente pode ser reprimido e tornar-se inconsciente, mas continua no psíquico. Para o psicanalista, o inconsciente só é conhecido ao tornar-se consciente.

Porém, entre essas duas instâncias, existiria uma outra, chamada de Pré-consciente. Mas se uma ideia pré-consciente ainda não é consciente, qual a diferença entre o inconsciente e o pré-consciente? Para Freud, o material inconsciente se produz em um material que permanece desconhecido, já as ideias pré-conscientes têm uma ligação com as representações verbais. Essas representações são resíduos de memória das percepções que a pessoa teve durante a vida.

Vejamos um exemplo de como o pré-consciente pode funcionar.

Freud aponta que mesmo um trabalho intelectual difícil pode ser efetuado pré-conscientemente. Ele cita o exemplo de um indivíduo que tenta resolver um problema matemático em um dia, mas encontra a solução logo após uma noite de sono.

Animador saber que podemos resolver problemas pré-conscientemente.
Mas qual a má notícia para um estudante, ou educador? A má notícia é que não é possível que um educador direcione como o pré-consciente dos educandos funcionará, nem mesmo o seu.

A Persistência da Memória (1931) – Salvador Dali

Por falar em sonho, Freud foi o autor da obra A Interpretação do Sonhos. Nela, ele mostra que entre os conteúdos dos sonhos encontram-se desejos reprimidos do consciente. O mesmo vale para os pesadelos. Essa ideia influenciou no estilo de um conhecido nome do surrealismo, o artista Salvador Dali. Baseado na Interpretação dos sonhos e com imagens que remetem ao onírico, Dali chamou seu estilo de ‘método de interpretação paranóico’.

Vejamos agora, outro conceito fundamental na teoria Freudiana. Libido.

Na obra Psicologia das Massas e Análise do Eu, Freud chama de libido a energia dos instintos que têm a ver com tudo abrangido pela palavra amor. Ela engloba o amor próprio, amor por pais e filhos, amizade, devoção a objetos, a ideias, etc. A psicanálise dá aos instintos amorosos o nome de instintos sexuais. Mas por quê esse nome?

Eis a importância de um processo chamado Complexo de Édipo. Segundo as observações feitas pela psicanálise, o primeiro objeto de amor da criança são os pais. Eles seriam os objetos dos primeiros instintos sexuais da criança. Porém há uma repressão dos instintos sexuais, de forma que a criança permanece ligada a eles pelos instintos ‘inibidos em seu objetivo’. Essa seria a primeira das relações afetuosas de uma pessoa. Todas as relações desenvolvidas após a infância, carregariam um herança dos instintos amorosos pelos pais. Incluindo a relação educadora(or)-educanda(o).

Vimos que a repressão retira ideias da consciência de uma pessoa e é também ela quem gera as relações afetuosas. Sublimação é o nome dado para a mudança de um objetivo sexual do instinto para um objetivo não-sexual e socialmente valorizado. Seria a sublimação responsável pelas produções artísticas, científicas, etc. Apesar de o objetivo não ser mais sexual, a energia que possibilita os impulsos ainda é. A libido.

Essa teoria causou espanto e horror em muitos intelectuais de sua época.

Eis um ponto de muito interesse à educação. Para Freud, a educação teria um papel importante no processo de sublimação. Porém, a mesma repressão que pode gerar uma sublimação, também pode gerar uma neurose. Uma educação repressiva teria um papel importante na manutenção de uma sociedade neurótica.

Visto isso, podemos entender um pouco melhor a questão inicial do texto. Os instintos amorosos dirigidos a uma educadora(or) podem ser sublimados em interesse por uma disciplina. Mas a repressão dos instintos também pode gerar ódio pela disciplina, neuroses, etc.

Uma grande dificuldade que surge para a educação está no fato de que a sublimação se dá através de processos inconscientes. O educador deveria promover a sublimação, mas sublimação não se promove, por ser inconsciente. Eis um dos motivos pelos quais Freud via a educação como uma tarefa impossível de ser realizada completamente.

Agora podemos pensar em outro texto já visto aqui. Paulo Freire e a Educação Libertadora. Para Paulo Freire, os oprimidos introjetam as opressões sofridas, como uma sombra. Esta sombra gera uma culpa no oprimido, pois este vive em uma contradição, de querer livrar-se da opressão, mas carregar o opressor dentro de si. Por conta disso “A alfabetização, por exemplo, numa área de miséria, só ganha sentido na dimensão humana se, com ela, se realiza uma espécie de psicanálise histórico-político-social de que vá resultando a extrojeção da culpa indevida. A isto corresponde a ‘expulsão’ do opressor de ‘dentro’ do oprimido, enquanto sombra invasora.” (2005, p.51)

Esta introjeção do opressor vai de encontro com a teoria Freudiana. Para ele, toda pessoa introjeta as repressões sofridas na infância em uma instância psíquica chamada ideal do Eu. Esta instância, que deve seu surgimento ao complexo de édipo, teria uma dupla face. É ela que, assim como um pai autoritário, ditaria o que o Eu deveria ser. Mas também exerce uma proibição. ‘Isso você não pode ser’. É o ideal do Eu o responsável pela moral e pelo sentimento de culpa de uma pessoa.

Referências Bibliográficas:

FREUD, Sigmund. Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976. Sobre a psicologia escolar. (1914 – v. 13)

KUPFER, M.C. Freud e a educação: o mestre do impossível, editora scipione.

FREUD, Sigmund. Obras completas, v.15: psicologia das massas e análise do eu e outros textos(1920-1923), São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

FREUD, Sigmund. Obras completas, v.16: o eu e o id, “autobiografia” e outros textos(1923-1925), São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 2005.

 

Sejam muito bem-vindas(os)! Meu nome é Rodrigo Castilho e tenho 22 anos. Sou movida por conhecer coisas novas e pelo desejo de ver um mundo com mais igualdade, representatividade e aceitação da diversidade. Como graduanda em filosofia e colunista do EducaHelp, felicito a todas e todos que são amigas(os) do saber [filósofas(os)].
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Rodrigo Castilho

Sejam muito bem-vindas(os)! Meu nome é Rodrigo Castilho e tenho 22 anos. Sou movida por conhecer coisas novas e pelo desejo de ver um mundo com mais igualdade, representatividade e aceitação da diversidade. Como graduanda em filosofia e colunista do EducaHelp, felicito a todas e todos que são amigas(os) do saber [filósofas(os)].

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