A Nova Ordem Mundial e os efeitos da globalização

Entenda a constituição e os efeitos da Nova Ordem Mundial e os efeitos da globalização perversa


Neste post detalharemos o processo de construção e os aspectos da Nova Ordem Mundial e suas consequências na sociedade quanto a Nova Divisão do Trabalho (DIT). Outro ponto será conceituar a globalização econômica  e abordaremos o efeito da globalização, por meio da globalização perversa na leitura do geógrafo Milton Santos.

Nova ordem mundial

A Nova Ordem Mundial surge com o fim da Guerra Fria nos anos 90, quando o mundo substituiu o mundo bipolar (dividido entre o capitalista EUA e a socialista URSS), para um mundo multipolar; onde diversos países teriam uma relevância no cenário mundial, como por exemplo, o EUA, Japão e diversos países da Europa.

Ou seja, a polarização existente no mundo bipolar é substituída por uma relevância de vários países. Embora o EUA seja declarado como o vencedor da Guerra Fria, outros países ganham relevância política e econômica, disputando o controle no cenário mundial com os norte-americanos.

Nesse mundo multipolar é provocado uma nova dicotomia entre os países do norte e países do sul. Os países localizados ao norte são considerados desenvolvidos e os países localizados no sul são os subdesenvolvidos. Esta divisão praticamente retorna a antiga concepção antes da Guerra Fria, que polarizava os países ricos (norte/desenvolvidos) versus países pobres (sul/subdesenvolvidos).

O mundo multipolar: perceba que a divisão entre norte x sul não é referenciada pela Linha do Equador, e sim, é dividida pelo indicador socioeconômico. Por isso, a Oceania é caracterizada como país desenvolvido (rico), mesmo estando situada no hemisfério sul.

Nesse contexto surge a Terceira Revolução Industrial que acarreta no desenvolvimento e aperfeiçoamento das técnicas e da inovação tecnológica. Por isso, entramos no período da Eras Tecnológicas.

Nova Divisão Internacional do Trabalho (DIT)

Antes da Nova Ordem, a Clássica DIT tinha as seguintes características:

  • A indústria, tecnologia e o capital se localizavam nos países desenvolvidos
  • Os países desenvolvidos exportavam os produtos industrializados e havia pouca relação de empréstimos e investimos desses países aos países subdesenvolvidos
  • Nos países subdesenvolvidos exportavam as matérias primas para os países desenvolvidos

Com a Nova Ordem Mundial ocorre uma Nova DIT que funciona da seguinte forma:

Para os países desenvolvidos:

  • Desenvolvem e produzem novas tecnologias que vendem aos países subdesenvolvidos . Estes países lucram com as patentes e os royalties
  • Aumentam o investimento e o empréstimos para os países subdesenvolvidos. Estes países lucram com o pagamento de juros dos empréstimos

Para os países subdesenvolvidos:

  • Ainda permanece a exportação dos produtos primários
  • Agora, as fábricas são instaladas nesses países subdesenvolvidos
  • Estes países agora exportam os produtos industrializados

Com essa Nova DIT, a desigualdade entre os países desenvolvido e subdesenvolvido é enorme. Os países ricos dominam o capital e a tecnologia, enquanto os países pobres ainda permanecem na condição de explorado e dependente, tendo como renda a exportação das matérias primas e agora a venda dos produtos industrializados, cuja tecnologia da indústria é comprada dos países desenvolvidos.

Além disso, os países ricos agora acrescentam os investimentos e os empréstimos a estes países subdesenvolvidos, criando uma dívida e subordinação dos países pobres.

As transnacionais e a descentralização da produção

Atualmente, nos países ricos as empresas ganham destaque no papel mundial. As chamadas transacionais ou multinacionais, que são empresas de capital estrangeiro que se instalam principalmente nos países subdesenvolvidos.

As indústrias estão instaladas nos países subdesenvolvidos com a intenção de baratear o custo da produção e aproveitar a mão de obra barata e leis trabalhistas mais flexíveis (leia-se exploração e precarização do trabalho). Por isso, muitas indústrias de estão instaladas na China, com o objetivo de torna a produção mais barata. Segue dois outros exemplos

1º exemplo: Donald Trump durante sua campanha eleitoral presidencial prometeu fazer com que a Apple produzisse os computadores e o Iphones nos EUA, e não mais na China, onde atualmente produz. O motivo dessa mudança é para cortar relação dos norte-americanos com a China. Segundo uma matéria da Deutsche Welle, se o Iphone fosse produzido em solo americano custaria o dobro do preço em comparação ao que custa hoje, sendo produzido na China (leia aqui) .

2º exemplo: Na prova da 2ª fase da Unesp 2017 foi cobrada uma questão que pedia a relação da imagem ao lado com a expansão das multinacionais no contexto da globalização. A imagem mostra a origem das peças do Boeing 787, destacando que cada peça do avião vem de uma empresa e país diferentes. Esse exercício destaca a descentralização da produção em busca de vantagens econômicas e fiscais, com a finalidade de baratear os custos produtivos.

Estas transacionais se expandiram no cenário mundial e hoje dominam o mercado. Praticamente, as transnacionais fizeram com que os Estados–Nações (governos dos países) perdessem seu poder.

Com certeza o leitor deve conhecer diversas transnacionais. Veja a imagem que ilustra a quantidade dessas empresas de capital estrangeiro

As transnacionais e os oligopólios: o controle da produção em poucas empresas de capital estrangeiro

O crescimento das transnacionais no cenário mundial somente se concretizou com o advento da globalização. Veja essa charge que ilustra o aumentos das transnacionais, de Um sábado qualquer, de autoria de Carlos Rua:

Nessa charge é possível ver o crescimento rápidos das transnacionais no mundo

A globalização e suas características

Não é unanimidade entre os estudiosos sobre o momento certo que surge a globalização. Contudo, consideraremos aqui que a globalização se inicia nos anos 70, quando o capitalismo financeiro (comandado pelas empresas) se intensifica.

Um espirro em outro país pode gerar espirros em outros países. O mundo praticamente está unido!

A definição de globalização pode ser entendida como o momento em que ocorre a intensificação de fluxos financeiros (do comércio internacional entre países), da modernização dos meios de comunicação; do intercâmbio de informações e por fim da informatização e da internet;

Um conceito que ilustra perfeitamente a globalização é o “meio-técnico-científico-informacional” do geógrafo Milton Santos (já comentamos desse conceito na aula de Regionalização no Brasil, veja aqui).

Outra noção interessante é a de Aldeia Global, do sociólogo canadense Marshall McLuhan na década de 60. Em síntese essa ideia afirma que num mundo globalizado não haveria fronteiras tendo a eliminação da distância e do tempo. Ou seja, o mundo viveria numa aldeia com restritas relações econômicas, políticas e sociais,

Alguns poucos exemplos da característica da globalização pode ser as seguintes:

  • O pilar da globalização tem duas bases: o capital e a tecnologia. Quem domina esses duas tem praticamente uma hegemonia no cenário mundial. Quem não tem essas bases passa ser dependente daqueles que as possuem.
  • A produção de mercadorias e o consumo são intensificados e o mercado torna-se mundial.
  • O aspecto cultural passa ser modificado. Hoje em dia um cidadão globalizado pode ter nacionalizada brasileira, comer fast food norte-americano, usar roupas produzidas na China ou de outros estilos, falar outras línguas não nativa (inglês, espanhol, mandarim). Enfim, temos facilmente o acesso a outras culturas.
  • Formação de blocos econômicos com o objetivo de intensificar e melhorar o comércio entre os países signatários dos blocos, garantindo benefícios para os países membros. Como exemplo, a União Europeia e o Mercosul.
  • Na intensificação da globalização surge a política neoliberalista, que inúmeros países se aderem. Entre uma das consequências dessa política econômica têm-se as privatizações, a precarização do trabalho e o Estado mínimo (mínima intervenção do Estado/governo);
  • Conforme mencionado anteriormente, nesse período impulsiona-se o avanço das transnacionais ou multinacionais.

A globalização como fábula, perversidade e possibilidade

Antes de explicar os efeitos da globalização é importante destacar a ideia do geógrafo Milton Santos sobre os mundos. Santos no livro “Por uma outra globalização” afirma que pode-se identificar três tipos de mundo:

  1. mundo como fábula
  2. mundo como perversidade
  3. mundo como possibilidade, o que chama de “outra globalização”

O mundo como fábula é aquela que daria uma visão fantasiosa ou imaginária sobre a globalização. Em geral, esta globalização seria aquela afirmada pela ideia de Aldeia Global, em que viveríamos em um mundo sem fronteiras e que todos teriam a mesma oportunidade dos benefícios dela, como por exemplo a tecnologia.

Veja um trecho da explicação de Santos sobre o mundo como fábula:

“É como se o mundo houvesse se tornado, para todos, ao alcance da mão. Um mercado avassalador dito global é apresentado como capaz de homogeneizar o planeta quando, na verdade, as diferenças locais são aprofundadas. O mundo se torna menos unido, tornando também mais distante o sonho de uma cidadania de fato universal. Enquanto isso, o culto ao consumo é estimulado” (2011, p.12).

O mundo como perversidade seria a globalização real, ou seja, como a vivenciamos. É claro que a globalização trouxe benefícios, mas infelizmente esta não foi benéfica para todos aumentando a desigualdade social.

Afinal, a inovação tecnológica por exemplo está restrita aos países ricos. Enquanto os países pobres não têm condições de criar sua própria tecnologia, dependendo dos donos. É a hegemonia dos países ricos com o uso do capital e da tecnologia sobre os países pobres.

Ainda sobre a desigualdade, o documento “Relatório da Riqueza Global” produzido pelo banco Credit Suisse, afirmou que 1% da população mundial concentra 50% da riqueza, enquanto, 80% da população detém apenas 5,5% da riqueza (leia aqui)

São vários exemplos da globalização perversa e num outro momento abordaremos mais sobre esses efeitos negativos da globalização. Por enquanto podemos citar as seguintes:

  • As diferenças locais, entre cidades e países, são aprofundadas.
  • Mesmo com a ideia de diminuir a distância são construídos muros entre fronteiras, como por exemplo no México;
  • Aumento do xenofobismo (intolerância contra imigrantes)
  • O mercado é controlado por poucas empresas, por decorrência da formação de oligopólios (poucas empresas controlam o mercado), carteis (união entre empresas para controlar o preço de suas mercadorias) e entre outros.
  • Legislações trabalhistas flexibilizadas, aumentando a exploração e precarização dos trabalhadores;
  • Embora a produção de alimentos tenha aumentando mundialmente ainda persiste a fome em determinados países;
  • Aumento do desemprego
  • Aumento da taxa de violência, principalmente, em países subdesenvolvidos;

Por fim, o terceiro mundo seria como possibilidade, ou seja como o mundo deveria ser. Para Milton Santos “podemos pensar na construção de um outro mundo, mediante uma globalização mais humana” (2011, p.13). Ou seja, os avanços técnicos deveriam estar a serviço de uma sociedade democrática, no sentido de que, todos deveriam igualmente aproveitar seus benefícios.

Por isso existe ao redor do mundo diversos movimentos sociais chamados de altermundialistas, que lutam por uma globalização alternativa, que seja mais humana. Em outro momento destacaremos esses movimentos.

Considerações

Esta aula foi para tratar sobre a Nova Ordem Mundial e os efeitos da globalização. Futuramente trataremos mais sobre os avanços tecnológicos e as consequências no mercado mundial.

Referências

Carta Capital. A desigualdade social chega a níveis alarmantes. 05 de janeiro de 2016. Disponível em: http://www.cartacapital.com.br/revista/873/no-mundo-de-os-miseraveis-5584.html

Deutsche Welle E se o iPhone fosse produzido nos EUA? 23 de novembro de 2016. Disponível em: http://www.dw.com/pt-br/e-se-o-iphone-fosse-produzido-nos-eua/a-36491239

Geografia no Vestibular. Vestibular Unesp 2017 – segunda fase. 18 de dezembro de 2016. Disponível em: https://geografianovestibular.wordpress.com/2016/12/18/vestibular-unesp-2017-segunda-fase/

SANTOS, Milton Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal, Rio de Janeiro, BestBolso, 2011.

Graduado e mestre em Geografia pela Unesp, campus de Presidente Prudente (SP). É atualmente professor de geografia em escolas particulares e públicas e professor de geopolítica em cursinho preparatório para vestibular. Escreve no Geografia no Vestibular e no Educa Help.
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Leandro Nieves

Graduado e mestre em Geografia pela Unesp, campus de Presidente Prudente (SP). É atualmente professor de geografia em escolas particulares e públicas e professor de geopolítica em cursinho preparatório para vestibular. Escreve no Geografia no Vestibular e no Educa Help.

Um comentário em “A Nova Ordem Mundial e os efeitos da globalização

  • 11 de janeiro de 2017 em 18:43
    Permalink

    Olá Leandro. Me chamo Kassiano, sou professor de Sociologia da rede pública de SP, colunista desse blog e, também, mantenho um blog pessoal no qual, além de material de aula, há artigos reflexivos sobre algum fato ocorrido na sociedade, resumos de livros, filmes, etc.. Digo isso, pois um dos artigos que escrevi ano passado e trabalhei em sala de aula (As novas formas de produção e reprodução do traalho no mundo atual) foi sobre a reunião do Fórum econômico mundial, em Davos. E um dos assuntos que abordo vai ao encontro da sua aula dessa semana. Caso fosse possível e queira, peço que leia.

    http://professorkassiano.webnode.com.br/news/forum-economico-mundial-e-a-quarta-revolucao-industrial/

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