O Drible é Negro

Texto do colunista convidado Guilherme Silva. Graduando em história pela Universidade Estadual de Campinas. Tem interesse na área de História da África.

Ilustrações da página Antigas Fotos do Futebol Brasileiro (AFFB). “O nosso lema é fotografia & nostalgia!”

Hoje em dia, passados quase 130 anos da abolição da escravidão, ainda nos deparamos com a existência do racismo. Podemos citar, por exemplo, os inúmeros casos de racismo no futebol — o jornal O Globo listou 10. Aliás, o mesmo futebol que em seus primórdios, durante as primeiras décadas do século XX, impedia o acesso aos negros nos clubes. Como forma de ressaltar o passado glorioso do futebol e, da mesma forma, pretendo fazer uma reflexão sobre a história do drible no Brasil e, por fim, defender que essa forma de jogar futebol é criação de jogadores negros.

Futebol, de Francisco Rebolo. 1936. Quadro do artista era uma crítica social ao esporte elitizado
Futebol, de Francisco Rebolo. 1936. Quadro do artista era uma crítica
social ao esporte elitizado
Pelé entortando a zaga adversária
Pelé entortando a zaga adversária
Katia Cilene atuando pela equipe do SPFC
Katia Cilene atuando pela equipe do SPFC Foto: Gazetapress

Antes de começar a escrever, preciso dar nome aos bois e reconhecer a autoria dessa hipótese. Renato Nogueira, o autor, é filósofo e pesquisador, seus escritos defendem uma forma de se fazer filosofia baseado na ideia de afroperspectiva, ou seja, que atenta para elementos da herança cultural dos povos africanos no Brasil no pensamento brasileiro. É, nesse sentido, que Renato Nogueira defende a ideia do drible, para ele, “o drible é o exercício de encontrar canais para a visibilidade do pensamento filosófico africano, assim como da filosofia afrodiaspórica”. Para quem se interessar no assunto, segue o link com o texto “O Conceito de Drible e o Drible do Conceito: analogias entre a história do negro no futebol brasileiro e do epistemicídio na filosofia”. De qualquer forma, sua pesquisa é interessante pois não só reconhece o drible como sendo de origem negra, como também reconhece o drible como forma de pensamento africano, com suas próprias especificidades.

Enéas, acompanhado por Cláudio Marques, dribla o goleiro Luís Antônio e marca o quinto gol da Lusa na vitória por 5×1 no estádio do Pacaembu
Enéas, acompanhado por Cláudio Marques, dribla o goleiro Luís Antônio e marca o quinto gol da Lusa na vitória por 5×1 no estádio do Pacaembu. Foto: Revista Placar
Anos 90 Renato vem com fúria, mas não acerta nem a bola nem Júnior
Anos 90 Renato vem com fúria, mas não acerta nem a bola nem Júnior
Júnior deixa Renato Gaúcho no chão em 1992
Júnior deixa Renato Gaúcho no chão em 1992
SE Palmeiras — SC Corinthians. Campeonato Paulista Feminino. Foto: Gazetapress

O argumento central por trás da ideia de que o drible foi invenção negra tem relação com a própria história do futebol brasileiro. Segundo Renato, além das inúmeras restrições impostas aos jogadores negros, havia ainda a prática racista de juízes que sempre tendiam para o lado dos atletas brancos. O drible foi uma forma desses jogadores negros se adaptarem à situação dos jogos, uma vez que deveriam ser rápidos o suficiente para não sofrer faltas — as quais não seriam marcadas pelos juízes. Além disso, as rodas de sambas também foram importantes para a elaboração dos dribles, seja no movimento rápido com os pés, seja no balanço do corpo.

Pelé em seu famoso drible de corpo em cima do goleiro Mazurkiewicz
Pelé em seu famoso drible de corpo em cima do goleiro Mazurkiewicz Foto: RBS
Anos 80 Serginho Chulapa vs. Wladimir
Anos 70 Jairzinho, do Brasil, contra o Peru
Dario contra o Vasco pelo campeonato carioca de 1973.

Aliás, isso não é novidade nenhuma para quem acompanha futebol. O drible é negro. Mesmo assim é interessante observar que esses reconhecimentos estão sendo feitos em espaços fora dos campos e dos estádios. Nesse sentido, é importante lutarmos contra os “esquecimentos” dentro do futebol e valorizar os inúmeros jogadores que tiveram de enfrentar todos os obstáculos. Felizmente, encontramos muitos exemplos de sucesso na história do futebol, há o Domingos da Guia, por exemplo, que após o mundial de 1938 foi eleito o zagueiro mais completo do mundo, ou então podemos citar o Pelé, que dispensa apresentações e que é melhor que o Maradona.

Domingos da Guia Foto: Trivela/Reprodução
Este texto foi uma transcrição da postagem original:
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Sejam muito bem-vindas(os)! Meu nome é Rodrigo Castilho e tenho 22 anos. Sou movida por conhecer coisas novas e pelo desejo de ver um mundo com mais igualdade, representatividade e aceitação da diversidade. Como graduanda em filosofia e colunista do EducaHelp, felicito a todas e todos que são amigas(os) do saber [filósofas(os)].
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Rodrigo Castilho

Sejam muito bem-vindas(os)! Meu nome é Rodrigo Castilho e tenho 22 anos. Sou movida por conhecer coisas novas e pelo desejo de ver um mundo com mais igualdade, representatividade e aceitação da diversidade. Como graduanda em filosofia e colunista do EducaHelp, felicito a todas e todos que são amigas(os) do saber [filósofas(os)].

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