A ORIGINALIDADE DO PENSAMENTO DE KARL MARX

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Nenhum outro pensador exerceu e exerce tanta influência até os dias atuais, à direita ou à esquerda do espectro político, como Karl Marx (1818-1883). Inúmeras “tradições marxistas” foram criadas após sua morte, adequando o seu pensamento a realidades determinadas. Algumas até transformaram o seu legado teórico-político em “dogmas fechados”, tal como “rituais religiosos”. Antropólogos o acusaram sempre de desconsiderar, menosprezar o “aspecto cultural” das sociedades (O que é uma falácia! Uma leitura atenciosa de sua obra desmistifica isso).

Pois bem, esse texto tem como objetivo identificar as ideias marxianas e não as ideias marxistas. O que estou querendo dizer com isso? As ideias marxianas são as de “autoria”, da “responsabilidade” de Marx. Já as ideias marxistas, não. São de responsabilidade de pensadores que o sucederam. Entrar nesse campo e discutir os “vários marxismos” está fora do propósito aqui. Qual o propósito? É mostrar a influência de Marx para a Sociologia, principalmente a originalidade do seu pensamento e obra teórica.

Karl Marx é um pensador original! Essa originalidade, para aquilo que nos interessa, reside no seu método de análise da sociedade capitalista moderna, bem diferente do método de análise social de Émile Durkheim e Max Weber (Ver em: http://blog.educahelp.com/category/sociologia/ ). Esses pensadores possuem algo em comum. Suas “categorias analíticas” existem a priori e a despeito do objeto real. Ambos partem da epistemologia kantiana que enfatiza a “capacidade do sujeito (abstrato)” de interpretar, desvendar o “objeto real (concreto)”, “fracionando” a análise em diversos fatores (religião, cultura, ação social, solidariedade, etc), não compreendendo a totalidade do objeto real e suas variadas conexões. Para Marx, é o contrário. Não é o “pensamento que determina a realidade, como acredita Durkheim e Weber. É a realidade que determina o pensamento”.

O método de investigação de Marx, que o acompanhou durante toda a sua vida, especificamente a partir de 1843, é entender a “ordem social burguesa”, na qual “o modo de produção capitalista” é o eixo central, a base de análise concreta para o pesquisador social entender as outras conexões sociais e as estruturas que advém dessas conexões (Estado e a Igreja, por exemplo). Em outras palavras, Karl Marx não tem uma “ideia (tese) a priori” para colocá-la em prática na interrelação com o objeto, validando-a ou refutando-a; mas o contrário, é o “movimento real do objeto real” que vai determinar a “minha reprodução ideal”. Para ele, Teoria é “a reprodução ideal (mental) do objeto real”.

Eis aí a sua originalidade como pensador social, fundando um novo campo de investigação social. Esse “novo campo de investigação” é denominado por alguns intelectuais como a Ontologia do ser social. O que isso significa? Abaixo haverá indicações para aprofundar nesse assunto, porém, grosso modo, “ontologia (onto = ser e logia = estudo)”. Em Marx, a ontologia não representa apenas o “estudo do ser” (a sua essência natural, por exemplo), mas sim “o estudo do ser social” (a produção e reprodução social da vida material, determinante para a formação e reprodução socio-histórica do ser social, ou seja, da humanidade).

 

Na semana que vem a nossa “nave investigadora” vai pousar e discutir a “pós-verdade” e como a Sociologia nos ajuda a entender esse fenômeno.

 

INDICAÇÕES DE LEITURA

– CHASIN, José. Marx: Estatuto ontológico e resolução metodológica;

– MARX, Karl. A Ideologia alemã;

– MARX, Karl. Grundrisse;

– MARX, Karl. O Capital;

– NETTO, José Paulo. O método em Marx (Palestra). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=tTHp53Uv_8g&index=1&list=PLD493D90710CB2DA4 Acesso em 31/01/2017.

Sociólogo formado pela FESPSP (Fundação Escola e Sociologia e Política de São Paulo). Professor da rede estadual de ensino de São Paulo. Militante político e cultural.
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Kassiano César de Souza Baptista

Sociólogo formado pela FESPSP (Fundação Escola e Sociologia e Política de São Paulo). Professor da rede estadual de ensino de São Paulo. Militante político e cultural.

2 comentários em “A ORIGINALIDADE DO PENSAMENTO DE KARL MARX

  • 8 de fevereiro de 2017 em 20:28
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    Paulo Jr. Obrigado pelas palavras. É muito gratificante saber o retorno dos textos. Procuro sempre nos textos que escrevo colocar essa reflexão para o leitor comum, sem ficar muito na técnica sociológica. Amanhã tem nova postagem e o tema é interessante e provocador. Falarei sobre a “pós-verdade”. Convido-o à leitura.
    Sobre o “Manifesto Comunista”, é um livro fundamental de Marx, porém não se referia diretamente ao enfoque dado para o texto em si.
    Mais uma vez, agradeço e, quando quiser, comente mais.

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  • 8 de fevereiro de 2017 em 11:14
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    Prof° Kassiano, é sempre muito empolgante e envolvente cada leitura que faço de suas postagens! O modo pelo qual vc escreve, convergindo o leitor para a raiz de sua linha de raciocínio, permite-nos viajar no momento histórico em que os fatos estão sendo narrados e – ao mesmo tempo – faz com que estabeleçamos um paralelo entre a teroria e a prática, construindo-se assim, nossas próprias conclusões sobre o assunto abordado. Vc escreve com muita maestria. Sou fã de sua arte e, por favor, não pare de nos alimentar com essa fonte de conhecimento que provém do seu intelecto!

    De Karl Marx também recomendo ” Manifesto Comunista”

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