Paulo Freire e a Educação Libertadora

Amigos filósofos, nesta semana aprenderemos um pouco do pensamento de Paulo Reglus Neves Freire. Ele nasceu em 1921 no Recife, Pernambuco (na época, uma das regiões mais pobres do país). Foi um educador, pedagogo e filósofo brasileiro, sendo considerado um dos pensadores mais notáveis na história da pedagogia mundial.

Sua filosofia vê a natureza do ser como algo inacabado. No humano seu inacabamento, como tal se sabe, gera um permanente movimento de busca, uma curiosidade por natureza. Freire não vê a natureza humana como algo dado, mas sim constituída historicamente. Logo, mulheres e homens não são, mas estão sendo. De acordo com sua concepção, os seres humanos são condicionados, mas não determinados, pois conscientes do seu inacabamento é possível ir além dele.

Para o filósofo, humanos se tornam educáveis na medida em que se reconhecem inacabados. Não foi a educação que fez mulheres e homens educáveis, mas a consciência de sua inconclusão é que gerou sua educabilidade. Sendo assim, o educando deve manter viva sua curiosidade e o educador, que a inibe, está desumanizando-o.

O professor deve respeitar e estimular a capacidade criadora do educando. Deve respeitar os saberes com que os educandos, sobretudo os das classes populares, chegam a ele. Nas condições de verdadeira aprendizagem os educandos, ao lado do educador, vão se transformando em reais sujeitos da construção e da reconstrução do saber inacabado.

Paulo Freire também aponta que ao tornarem-se sujeitos, mulheres e homens se definem em comunicação com o outro. Desta maneira, a tarefa do educador é desafiar o educando com quem se comunica a produzir sua própria compreensão. Em uma constante troca, quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender.

Mas para que a comunicação seja possível, é necessário que o professor entenda a realidade social em que ele e os educandos estão contidos. É preciso que os conhecimentos trazidos por cada um sejam respeitados.

Veremos então, amigos filósofos, qual é essa realidade social em que professor e aluno estão imersos.

Em sua grande obra Pedagogia do Oprimido, o filósofo aponta que a realidade social é caracterizada pela opressão. Através de uma oposição entre opressores e oprimidos, os primeiros inibem a curiosidade e a liberdade dos segundos, desumanizando-os e, ao mesmo tempo, se desumanizando. Ambos presos e carentes de libertação.

Os que oprimem, exploram e violentam, em razão de seu poder não podem ter, neste poder, a força de libertação dos oprimidos e nem de si mesmos. A falsa generosidade vinda dos opressores têm a necessidade da permanência da injustiça para poder realizar-se. Portanto, só o poder que nasce dos oprimidos pode libertar ambos.

Afinal, quem, melhor que os oprimidos, se encontrará preparado para entender o significado terrível de uma sociedade opressora?

Porém, Freire aponta que os oprimidos, também imersos na realidade opressora, possuem um ideal forjado pelos opressores. Apesar de saberem que são oprimidos, tendem a desejar, também, oprimir.

Eis a necessidade da superação da realidade opressora. Mas se os opressores não podem libertar os oprimidos, e esses tendem a também ser opressores, como é possível a superação?

Em resposta a essas questões, o filósofo desenvolve o conceito de ‘práxis’, a reflexão de mulheres e homens sobre o mundo para transformá-lo. A práxis é o diálogo inseparável entre reflexão e prática.

Uma pedagogia libertadora deve ser uma pedagogia do oprimido. Tem que ser forjada com ele e não para ele, fazendo da opressão e de suas causas objeto da reflexão dos oprimidos, em diálogo com a prática. Os oprimidos devem ser o exemplo para si mesmos. Já os opressores, sozinhos não podem libertar ninguém e, muito menos, libertar-se de uma realidade opressora que desumaniza a todos.

Pois então, caros leitores, veremos algumas das fortes críticas feitas por Paulo Freire às opressões, dando voz e seguindo com o exemplo dos oprimidos.

Segundo ele, práticas machistas, racistas e classistas (opressão através de classes sociais) tiveram justificativas genéticas, históricas e filosóficas. Tal afirmação vai de encontro com os estudos de Angela Davis e Simone de Beauvoir (trabalhamos algumas delas no texto  Angela Davis e o Mito da Mulher Negra)

Freire, como vimos, afirma que o oprimido está submetido à um ideal opressor, ideal também denunciado por Joyce Fernandes (Preta Rara). Vejamos um trecho da música Falsa Abolição, da rapper, militante e professora de história:

Tô cansada do embranquecimento do Brasil,

preconceito, racismo como nunca se viu.

Meninas negras não brincam com bonecas pretas.

Foi a Barbie que carreguei até chegar na minha adolescência”.

O filósofo também aponta que faz parte do poder dominante a culpa que recai sobre os moradores das favelas pela desigualdade e pela violência. Ele descreve um caso em que a luta de um jovem operário da favela foi mais importante na constituição de um novo saber do que o discurso de militantes que pretendiam conduzir o povo. Sobre tal culpa, vejamos o que diz o rapper, escritor e palestrante Carlos Eduardo Taddeo, na música Os Cravos do Holocausto:

“Também me senti inferior olhando a vitrine, namorando os bagulho que só podia ter no crime. Mudei quando vi a trama dos reis do camarote, que brindam nossa morte com Cristal e sairoque, que são imunes a processo e ação de polícia, mas não a munição gangsta da minha rima. […] Não temos 1% da maldade do opressor, na paisagem militar com escolta e blindado. Somos os cravos que florescem em meio ao holocausto”.

Paulo Freire condena, em sua obra, qualquer forma de discriminação e afirma que lutar contra ela é um dever. Também afirma que não se pode confundir a reação do oprimido com a violência do opressor. Pelo contrário, é necessário que um educador respeite a autonomia e a identidade do educando. É preciso comprometer-se com as opressões que o educando sofre.

Apesar de todas as denúncias acerca da realidade opressora, Freire foi um educador da esperança. Segundo ele, a esperança faz parte da natureza humana. É ela que guia o movimento constante de busca (citado no início do texto). Vemos também no rap o canto pela esperança.

“É necessário sempre acreditar que o sonho é possível, que o céu é o limite e você, truta, é imbatível. […] É isso aí você não pode parar. Esperar o tempo ruim vir te abraçar. Acreditar que sonhar sempre é preciso, é o que mantém os irmãos vivos.” Racionais MC’s – Vida é Desafio.

Referências Bibliográficas:

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia:saberes necessários à prática educativa. Coletivo Sabotagem. 2002.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 2005.

Sites:

http://www.paulofreire.org/paulo-freire-patrono-da-educacao-brasileira

http://www.pretarara.com/

 

Sejam muito bem-vindas(os)! Meu nome é Rodrigo Castilho e tenho 22 anos. Sou movida por conhecer coisas novas e pelo desejo de ver um mundo com mais igualdade, representatividade e aceitação da diversidade. Como graduanda em filosofia e colunista do EducaHelp, felicito a todas e todos que são amigas(os) do saber [filósofas(os)].
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Rodrigo Castilho

Sejam muito bem-vindas(os)! Meu nome é Rodrigo Castilho e tenho 22 anos. Sou movida por conhecer coisas novas e pelo desejo de ver um mundo com mais igualdade, representatividade e aceitação da diversidade. Como graduanda em filosofia e colunista do EducaHelp, felicito a todas e todos que são amigas(os) do saber [filósofas(os)].

5 comentários em “Paulo Freire e a Educação Libertadora

  • 30 de dezembro de 2016 em 01:05
    Permalink

    CONZPIRASOM

    Direto do cemitério das poesias.
    Contra a ordem atual.
    Só poder da periferia.
    Até ficar bom pra todos,
    não tá bom pra ninguém não.
    Objeto sem alma sempre foi o dominador,
    boy cuzão.
    E as correntes feitas de notas.
    E as algemas feitas ouro.
    Estacionamento de mente pro povo.
    Autoestima vocês não roubam.
    Militância vocês não prendem.
    Seus bairros são nobres,
    mas as camisas, de hip hop.
    Sua área é valorizada,
    mas a favela tá com o boné da rapa.
    Padrão gringo, mundo ilusório.
    Foda-se, aqui ninguém comprou seu plano de negócios.
    O sistema criou armas,
    paralisaram o conhecimento.
    Da faculdade arrombamos as portas
    sem consentimento.
    Diploma é um pedaço de papel
    que diz que você seguiu as regras.
    Deve diminuir distâncias,
    mas não te tira da floresta.
    Da minha nota, primeira da classe
    veio as mães que choram.
    Contando cápsula e datilografando
    o filho que não volta.
    Esconderam que informação é a cura
    e que terrorismo de estado
    capacita jagunço uniformizado.
    Matriciaram que pobre preto
    fica no poste, esperando ascender o baseado.
    E artista lambe bota do governo, é patrocinado.
    Se a Ronda é escolar, precisa aprender
    que é meta pregar o caos,
    pra amanhã libertar você.
    Todos sabem a verdade,
    só se esqueceram dela.
    Apurei não só a fala,
    mas os ouvidos da favela.
    No final da prova
    uma só frase pra ser nosso grito:
    Seu tempo é curto, estamos unidos.
    Acabou a maconha, bebedeira e a ostentação.
    Essa porra não é letra,
    é conspiração.

    -Eduardo Ferrez e T$G

    Resposta
  • 29 de dezembro de 2016 em 17:12
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    Olá Nicolas! Primeiramente, muito obrigado pelo seu comentário. Vimos que a comunicação é muito importante para o aprendizado de todos.
    São vistos muitos professores que utilizam músicas para que os alunos memorizem fórmulas de física e matemática, ou músicas que questionavam a ditadura militar. Porém poucos que usam o funk e o rap para retratar a realidade das classes populares. Apesar de nosso texto ter citado apenas trechos de Rap, o funk também pode denunciar diversas opressões e ter um papel fundamental na educação. Por exemplo o Mc Garden, na música “Isso é Brasil”, diz:

    “Autoridades não usam ideias, só usam onomatopeia do shiu. Isso é Brasil.”

    A onomatopeia é uma das figuras de linguagem que são cobradas no vestibular. Já seu verso traz a ideia de que as autoridades brasileiras utilizam a censura, ao invés de uma argumentação. A censura também é um tema muito discutido, também, em vestibulares, pois temos como exemplo a censura implementada na ditadura militar como forma de manter um regime que ia contra a vontade da população.
    Outro exemplo do funk é a Mc Carol. Na música “Não Foi Cabral”, a mc relata que ao invés de famílias, os portugueses trouxeram doenças, explorações e mortes para os índios. Ela ainda diz:

    “Se não fosse a Dandara eu levava chicotada.”

    Esse verso tem uma imensa importância histórica, pois existiu um movimento, que acompanha o país, de apagar a história dos negros e das mulheres. Dandara foi uma líder tão importante quanto Zumbi dos Palmares. Trago alguns trechos do site Geledés:

    “Dandara além de esposa de Zumbi dos Palmares com quem teve três filhos foi uma das lideranças femininas negras que lutou contra o sistema escravocrata do século XVII.
    […] Quando os primeiros negros se rebelaram contra a escravidão no Brasil e formaram o Quilombo de Palmares, na Serra da Barriga, em Alagoas, Dandara estava com Ganga-Zumba (rei de palmares). Participou de todos os ataques e defesas da resistência palmarina. Na condição de líder, Dandara chegou a questionar os termos do tratado de paz assinado por Ganga-Zumba e pelo governo português. Posicionando-se contra o tratado, opôs-se a Ganga-Zumba, ao lado de Zumbi.
    […] Para Dandara, a Paz em troca de terras no Vale do Cacau que era a proposta do governo português, ela preferiu a guerra constante, pois via nesse acordo a destruição da República de Palmares e a volta à escravidão.”
    Leia a matéria completa em: http://sgq.io/wThpiLbo#gs.9SsbgoE

    Resposta
  • 29 de dezembro de 2016 em 17:00
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    “Porém, Freire aponta que os oprimidos, também imersos na realidade opressora, possuem um ideal forjado pelos opressores. Apesar de saberem que são oprimidos, tendem a desejar, também, oprimir”

    pesado

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    • 29 de dezembro de 2016 em 17:54
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      Olá Rái! Primeiramente, muito obrigado pelo seu comentário.

      Acho que “pesado” é uma palavra que define bem mesmo. Tanto que se esse ideal opressor não for levado em conta, a própria educação pode perder o sentido. No livro “Pedagogia do Oprimido” ele afirma que sem uma extrojeção do opressor de dentro oprimido o ensino de elementos fundamentais, como a alfabetização, fica comprometido. Segue o trecho:

      “A alfabetização, por exemplo, numa área de miséria, só ganha sentido na dimensão humana se, com ela, se realiza uma espécie de psicanálise histórico-político-social de que vá resultando a extrojeção da culpa indevida. A isto corresponde a ‘expulsão’ do opressor de ‘dentro’ do oprimido, enquanto sombra invasora.” (p.51)

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  • 29 de dezembro de 2016 em 15:18
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    http://www.bbc.com/portuguese/brasil-36750824

    Lembrei dessa reportagem ao ler o texto. Quando falamos de educação libertadora, parece algo meio místico e de outro mundo, reservado à algumas raras (e por vezes não tão acessíveis) escolas com um projeto educativo diferenciado. Mas existem sim iluminados exemplos de práticas pedagógicas libertadoras na escola pública, que criam espaços de discussão dos alunos (e não para os alunos) na linguagem deles. E a exemplo da reportagem, projetos pedagógicos compromissados com as opressões sofridas pelos educandos (realizados seja na aula de uma disciplina ou em conjunto por uma escola inteira) são sim mais uma pontinha de esperança e transformação!

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