PÓS-VERDADE E SOCIOLOGIA: O QUE FAZER?

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O dicionário Oxford, conhecido por adicionar ao seu repertório as palavras mais faladas durante um ano, elegeu uma palavra que representa o ano de 2016, mas não apenas ele, mas sim a sociedade contemporânea. A palavra é a “pós-verdade”. Como assim? Existe algo “depois da verdade”? Estranho mesmo leitor. Tentar responder a isso e como a Sociologia ajuda a compreendermos os motivos que contribuíram para essa “aberração pós-moderna”, será a tarefa do post dessa semana.

Se fizermos um exercício de pensarmos personagens históricas se deparando com a “pós-verdade”, como seriam suas reações? Veremos o quão é ilógico e irracional esse conceito. Porém, como os conceitos não são “criados ao acaso”, mas refletem as relações sociais concretas determinadas historicamente, a “pós-verdade” tem muito a nos dizer sobre a sociabilidade atual. Grosso modo, ela se refere à negação dos fatos reais e concretos, privilegiando a sua interpretação. Em outras palavras – o que é o mesmo -, no mundo contemporâneo a interpretação subjetiva dos fatos e acontecimentos sociais tem maior peso na formação da opinião pública do que a verdade objetiva dos fatos; aliás, ela, objetivo central do conhecimento, é relegada a mero apêndice de elucubrações mentais parciais e enviesadas (Para saber mais sobre a “pós-verdade”, ver citações abaixo).

À primeira vista podemos afirmar: Que coisa mais ilógica e irracional! No entanto, se aprofundarmos mais a investigação veremos que ela tem origens na noção de “pós-modernidade”. Um tipo particular de reflexão dentro das Ciências Humanas e Sociais (Sociologia também) contribuiu para esse “desastre contemporâneo”. Que contribuição é essa? Basicamente, é o irracionalismo que se caracteriza na crítica e no “esvaziamento” do “poder da razão” de interpretar e significar o mundo, dando origem a expressões como: “Tudo é linguagem”, “A realidade não existe, o que existe são interpretações”, “Tudo é relativo”, etc, etc, etc… Ou, como no trabalho do sociólogo polonês, pós-moderno, Zygmunt Bauman (1925-2017), conhecido como o teórico da “modernidade líquida” e da “fluidez das relações humanas e sociais”.

É óbvio que Bauman constatou esse fenômeno da sociedade contemporânea, todavia, em nenhum momento da sua obra o combateu, pelo contrário, a sua teoria como a de outros pensadores pós-modernos se destacam pelo “niilismo” de suas proposições (Em linhas gerais, quando não se visualiza caminhos alternativos de resolução), a “jaula de ferro” do pensamento atual.

Como combate a isso, sugiro que voltemos aos pensadores clássicos, ao que nos interessa, aos sociólogos clássicos (Durkheim, Weber e Marx), que mesmo distinguindo-se nos seus pensamentos, principalmente Karl Marx, ainda buscavam a totalidade de pensamento e o poder da razão de compreendê-la. Sempre tendo como base a “realidade objetiva”.

 

Na próxima semana a nossa “nave investigadora” deitará pouso na Sociologia brasileira. Aguardem!!

 

INDICAÇÕES DE LEITURA

– HARVEY, David. Condição pós-moderna;

– Para saber mais sobre os clássicos da Sociologia: http://blog.educahelp.com/category/sociologia/;

– Para saber mais sobre a “pós-verdade”: http://www.cartacapital.com.br/revista/933/a-era-da-pos-verdade e http://www.cartacapital.com.br/revista/936/para-entender-a-pos-verdade

Sociólogo formado pela FESPSP (Fundação Escola e Sociologia e Política de São Paulo). Professor da rede estadual de ensino de São Paulo. Militante político e cultural.
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Kassiano César de Souza Baptista

Sociólogo formado pela FESPSP (Fundação Escola e Sociologia e Política de São Paulo). Professor da rede estadual de ensino de São Paulo. Militante político e cultural.

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