A REFORMA DO ENSINO MÉDIO E A DIVERSIDADE SOCIOEDUCACIONAL BRASILEIRA

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Na última quinta-feira (09/02/2017), o Senado Federal aprovou a Medida provisória da reforma do ensino médio. A partir de agora, com as mudanças na legislação educacional (LDB 9394), o ensino médio será flexibilizado, proporcionando aos Estados – desiguais entre si – moldar a grade curricular de acordo com as necessidades específicas dos sistemas de ensino e dos estudantes. Serão os(as) alunos(as) brasileiros os mais beneficiados? Será que os idealizadores, apoiadores e defensores da reforma têm no seu horizonte de visão a diversidade da sociedade e da educação brasileira? Esse texto se propõe a essa reflexão.

Primeiro ponto. O Ministério da Educação (MEC) faz um bombardeio diário na mídia com propagandas que ressaltam a “liberdade de escolha” dos estudantes, ou criticando os contrários à reforma, como na frase: “Quem conhece o novo ensino médio, aprova”; numa clara atitude de descrédito aos seus críticos, chamando-os de “ignorantes”. Ora, se realmente os(as) alunos(as) são os melhores interessados, por que não foram escutados? Em nenhum momento, desde a apresentação oficial da reforma (Setembro de 2016) até a sua aprovação final no Senado (Fevereiro de 2017), os envolvidos diretamente na educação escolar (pais, professores e, principalmente, alunos) não foram consultados. Nas audiências que houve na Câmara dos deputados, no final de 2016, foram consultados? A resposta é um uníssono: NÃO!! Quais grupos foram ouvidos? Os GRANDES CAPITALISTAS da educação!! Fundação Itaú Cultural, Fundação Bradesco, Editora Abril Cultural e, principalmente, a Fundação Lemann (Fundação norte-americana conhecida por defender o “ensino híbrido” e por “formar” os profissionais e “coordená-los” nas reformas educacionais pela América latina) estiveram presentes nas audiências da Câmara, delineando o “passo a passo”, com o lobby político, da reforma, sempre preservando os seus interesses comerciais e não educacionais e patrióticos, mesmo porque Karl Marx já afirmava no livro “Manifesto Comunista”, de 1848: “O capital não tem pátria!”. Portanto, se na “ponta do iceberg” (aparência) são os interesses dos jovens estudantes brasileiros que são enfatizados, por detrás das cortinas, nas negociações ocorridas na “coxia da sociedade” (essência), são os interesses desses e de outros empresários da educação que estão sendo determinantes na atual reforma. Numa enfática defesa da privatização do ensino médio brasileiro.

Segundo ponto. O Brasil é um país com altos índices de desigualdade social e pobreza e, também, dada a sua dimensão territorial, abriga uma diversidade cultural enorme entre regiões (Norte, Nordeste, Centro-oeste, Sudeste e Sul), entres os estados e entre os municípios. Será que essa diversidade que nos caracteriza como povo, foi levada em consideração pelos idealizadores da reforma? Como “diminuir”, ou mesmo “restringir” disciplinas é o caminho, dada a precariedade de conhecimento e informação que existe em muitos lugares do Brasil? Nesse caso, a escola é o único “espaço social” para aprender os conhecimentos acumulados historicamente. E, ainda assim, querem “eliminar conteúdos”?! É algo irracional e ilógico, dentro de uma visão de educação humanizada e humanizadora, todavia, totalmente lógico e racional dentro da visão de mercado dos capitalistas da educação e determinados governantes.

Sendo proposta essa reflexão ao leitor, quero convidá-los à leitura do artigo “A nova reforma do ensino médio – algumas considerações” (Citado abaixo), que escrevi na época do lançamento da Medida provisória (Ato institucional). Nele faço ponderações sobre os impactos da reforma, analisando-a para além do discurso e da propaganda. É “tão claro como o Sol” que a reforma aumentará ainda mais a desigualdade socioeducacional brasileira, com seletas escolas tendo o “novo modelo de ensino médio” e a maioria das escolas brasileiras, basicamente de regiões pobres e periféricas, tendo o “velho modelo de ensino médio”. Além de restringir o acesso à Universidade por parte dos brasileiros pobres, principalmente as públicas.

Com isso, não há dúvida para esse escritor: “Perdoe-os pai. Eles são sabem o que fazem”.

 

INDICAÇÃO DE LEITURA

– Artigo: “A nova reforma do ensino médio – algumas considerações”: http://professorkassiano.webnode.com.br/news/a-nova-reforma-do-ensino-medio-algumas-consideracoes/;

Sociólogo formado pela FESPSP (Fundação Escola e Sociologia e Política de São Paulo). Professor da rede estadual de ensino de São Paulo. Militante político e cultural.
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Kassiano César de Souza Baptista

Sociólogo formado pela FESPSP (Fundação Escola e Sociologia e Política de São Paulo). Professor da rede estadual de ensino de São Paulo. Militante político e cultural.

2 comentários em “A REFORMA DO ENSINO MÉDIO E A DIVERSIDADE SOCIOEDUCACIONAL BRASILEIRA

  • 12 de fevereiro de 2017 em 16:56
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    Concordo plenamente contigo Kassiano. Essa reforma vai aumentar a desigualdade na qualidade da educação brasileira [1]. Como disse Darcy Ribeiro “A crise da educação no Brasil não é uma crise em si; é um Projeto”, ou seja, o sistema da educação é precário por interesses. É claro que o governo quer, com a aprovação às pressas, mostrar serviço do governo [2], mas a educação só pode ser melhorada com um longo trabalho e com preparo adequado (o que não está previsto com a reforma). Por exemplo, o ensino fundamental deve sofrer mudanças para adaptar o aluno no novo ensino médio. O novo sistema nas escolas públicas precisará de mais investimento e infraestrutura para que realmente funcione a proposta. Outro ponto é buscar uma qualificação para o professor, aquele profissional que deveria ter participado nas discussões de uma reforma como essa. Infelizmente, sem uma formação adequada para o professor nesse novo ensino, complicará a educação brasileira e a situação para o educador, que ambos já tem problemas de sobras.

    [1] http://g1.globo.com/educacao/noticia/sem-investimento-reforma-do-ensino-medio-pode-piorar-desigualdade-dizem-especialistas.ghtml
    [2] https://educacao.uol.com.br/noticias/2016/09/22/mp-serve-mais-para-mostrar-servico-do-que-para-resolver-ensino-medio.htm

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    • 15 de julho de 2017 em 12:11
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      Concordo contigo Leandro! É uma reforma esquizofrênica e parasitária, sem mexer na porta de entrada do ensino médio (Ensino fundamental II). Não entende a educação básica como um todo. No que tange à porta de saída do ensino médio (Ensino superior), o governo objetiva mesmo é “fechá-la”, diminuindo o acesso de pobres ao ensino superior, jogando-o para os “cursos técnicos”. Para que pobre pensar, né?!

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