Renato Noguera e a Filosofia Afroperspectivista

Amigas filósofas e amigos filósofos, inciamos este texto com uma mudança e um pedido de desculpas a todas as mulheres que já nos leram. Percebemos que até então nos referimos simplesmente por ‘amigos filósofos’ ou ‘caro leitor’ ao nos dirigirmos às leitoras e aos leitores. Optamos por não mudar os textos originais como demonstração do que vimos em Paulo Freire: A(o) educadora(or) aprende ao ensinar.

Comecemos com algumas questões, no mínimo, desconcertantes. Primeira: quantas(os) filósofas(os) negras(os) você já estudou na escola?

Em janeiro de 2003 foi sancionada a Lei 10.639/03. Ela torna obrigatórios conteúdos de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana em todas as disciplinas de Educação Básica. Segue um trecho da lei:

“§ 1º O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil.” (BRASIL, LDB, 2003)

Mas qual a importância do estudo destes conteúdos para os estudantes? E, visto que a lei reconhece tal importância, por que um país com tanta influência africana demorou tanto para estudá-la? Esperamos entrar no caminho de tais respostas.

Terminamos o texto Paulo Freire e a Educação Libertadora com trechos de rap que denunciam uma realidade opressora. Desta vez, eles serão nosso ponto de partida. Vejamos o que Joyce Fernandes (Preta Rara) e Kleber Cavalcante (Criolo) falam sobre a discriminação sofrida pela cultura afro brasileira.

“Discriminam as religiões afro brasileiras, falando que é do diabo. Que é coisa feia” (Falsa Abolição)

“Di Cavalcanti, Oiticica e Frida Kahlo têm o mesmo valor que a benzedeira do bairro. Disse que não, ali o recém formado entende. Vou esperar você ficar doente.” (Sucrilhos)

Ambos mostram aspectos culturais de origem africana que sofrem discriminação. O mesmo processo ocorre na filosofia. Tanto que o filósofo afro-americano Charles Mills escreveu que “a Filosofia é a mais ‘branca’ das ciências humanas”.Renato Noguera

Renato Noguera é um filósofo brasileiro, profesor pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Veremos sua noção de filosofia afroperspectivista, que estuda a riqueza cultural e a herança dos povos africanos no Brasil e no mundo da afrodiáspora. Segundo ele, esses povos foram rechaçados por grande parte da filosofia ocidental.

Segue um trecho  do que Kant (nome que marcou a filosofia ocidental) disse sobre os negros:

“Os negros da África não possuem, por natureza, nenhum sentimento que se eleve acima do ridículo. O senhor Hume desafia qualquer um a citar um único exemplo em que um Negro tenha mostrado talentos[…]” (KANT, 1993)

 

 

Noguera também aponta que os negros ficam com os papeis de coadjuvantes no ensino. Nos debates sobre o tráfico negreiro, por exemplo, os estudos concentram-se nas atividades dos brancos ao invés dos esforços e resistências dos africanos.

Além do racismo anti negro, para Noguera o sistema educacional dominante transmite muitos valores da modernidade, que cultiva a ideia de progresso, individualismo e a razão como forma de controlar a natureza. Natureza localizada como objeto, conhecimento visto como propriedade e o ser humano como ser que os controlam. Nesse sentido, povos que não dominavam a escrita foram vistos durante muito tempo pelas nações modernas como sem cultura.

Outro ponto criticado pela filosofia afroperspectivista é a cisão entre corpo e mente, mantida por grande parte da tradição ocidental e do ensino brasileiro. Henrique Hokamura (colunista convidado) nos ajuda a entender a importância de tal crítica no texto Um Corpo com História. Outro ponto abordado pelo nosso  convidado é o racismo na dança.

Lembremos do texto Descartes e a Importância do Pensamento nas Ciências. O filósofo francês viu a razão como meio para a buscar uma verdade independente do mundo sensível. Uma verdade universal.

Noguera critica a noção de universal ao optar pela noção de pluriversal. Uma pluriversalidade reconhece que todas as perspectivas devem ser válidas e a racionalidade humana não é mais pensada com ‘A’ razão. A racionalidade teria vários modos de funcionamento e modelos distintos, que são construídos em diferentes contextos culturais. Eis uma forma de valorizar a tradição oral e não apenas a escrita. São formas diferentes de entender e organizar a vida.

Caras(os) leitoras(es), retomemos a questão: qual a importância de estudar as contribuições afroperspectivistas?

Renato Noguera diz que a educação dominante está comprometida com ‘A’ razão descrita, junto com os valores modernos citados acima. Porém, o acesso às instituições de ensino é um direito de todas as pessoas, diferentes entre si. O respeito de tais diferenças exige a diversidade de narrativas, de perspectivas culturais e pontos de vistas. Logo a importância de uma abordagem afroperspectivista passa pela crítica de um modelo monocultural das sociedades ocidentais. Por que as tradições de orixás, por exemplo, não encontram a mesma repercussão entre os textos de filósofas e filósofos do que a mitologia grega?

Vejamos, então, um pouco mais sobre a filosofia afroperspectivista.

O termo afroperspectivista funciona de dois modos:

1 – Conjunto de trabalhos realizados por filósofas(os) africanas(os) e afrodiaspóricas(os)

2 – Pesquisa na área de filosofia que leva em conta a riqueza cultural e a herança dos povos africanos no Brasil e no mundo da afrodiáspora.

Uma filosofia afroperspectivista deve ser afrocentrada. Ou seja, concebe os africanos como agentes e não coadjuvantes, valoriza as tradições de seus ancestrais e vê a natureza como algo que engloba todos os seres vivos e o meio ambiente. Tudo que é feito contra o meio ambiente é um ato contra a comunidade. Outra característica é a concepção de homens e mulheres como complementares. Cada qualidade masculina tem uma paralela feminina, de modo que mulheres e homens se equivalem física e psicologicamente.

Esta filosofia baseia-se em três teses:

1 – Pensar é movimentação que, ao invés da verdade, busca a manutenção do movimento.

2 – O pensamento é uma incorporação. Só é possível pensar através do corpo.

3 – A coreografia e o drible tornam possível a movimentação.

Para entender a terceira tese é preciso denegrir nossa concepção de drible. Antes, o que Noguera define como denegrir? Originalmente significa tornar negra(o). Porém, o racismo fez com que essa expressão ganhasse um tom pejorativo. Ele, então, a ressignifica para aumento da compreensão de uma ideia, pluriversalizar as abordagens. Este conceito opera diluindo as dominações étnicorraciais, de gênero, orientação sexual, etc.

Voltemos ao drible. Para Noguera, drible é o exercício de encontrar canais para a visibilidade da filosofia africana e afrodiaspórica. Com ele, é possível registrar a filosofia de formas diferentes de um texto de filosofia ocidental. Assim, Guilherme Sillva (colunista convidado) nos ajuda a entender esse conceito e a sua relação com o futebol brasileiro no texto O Drible é Negro.

Renato Noguera

Referências Bibliográficas

  • artigos:

Denegrindo a filosofia: o pensamento como coreografia de conceitos afroperspectivistas – Renato Noguera

Afrocentricidade e educação: os princípios gerais para um currículo afrocentrado – Renato Noguera

Denegrindo a educação: um ensaio filosófico para uma pedagogia da pluriversalidade – Renato Noguera

  • site:

O conceito de drible e o drible do conceito: analogias entre a história do negro no futebol brasileiro e do epistemicídio na filosofia

 

Sejam muito bem-vindas(os)! Meu nome é Rodrigo Castilho e tenho 22 anos. Sou movida por conhecer coisas novas e pelo desejo de ver um mundo com mais igualdade, representatividade e aceitação da diversidade. Como graduanda em filosofia e colunista do EducaHelp, felicito a todas e todos que são amigas(os) do saber [filósofas(os)].
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Rodrigo Castilho

Sejam muito bem-vindas(os)! Meu nome é Rodrigo Castilho e tenho 22 anos. Sou movida por conhecer coisas novas e pelo desejo de ver um mundo com mais igualdade, representatividade e aceitação da diversidade. Como graduanda em filosofia e colunista do EducaHelp, felicito a todas e todos que são amigas(os) do saber [filósofas(os)].

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