A Revolução Verde e o impacto social no Brasil

Entenda o que foi a Revolução Verde e as consequências sociais da modernização do campo no Brasil


1) O que é Revolução Verde?

Foi um programa de pesquisa para desenvolvimento de técnicas na agricultura. Este programa foi responsável pela modernização da agricultura (é também chamada de industrialização da agricultura)

A modernização no campo foi propulsionada através da criação de um pacote tecnológico. Este pacote tinha como as seguintes características, como [1]:

Insumos químicos industriais: fertilizantes e agrotóxicos. Os fertilizantes servem para melhorar a condição da terra e o agrotóxico serve para eliminar pragas e doenças. Tem-se discutido muito sobre o uso exagerado de agrotóxico na produção de alimentos.

Pulverização aérea: uma das práticas mais contestadas sobre a forma de aplicação do agrotóxico com o uso de aviões. Nessa forma o agrotóxico pode atingir mananciais através do vento.

Veja abaixo uma tabela indicando a porcentagem de amostras com irregularidade (leia mais)

Sementes modificadas: cria-se sementes mais resistentes contra as pragas e doenças. São chamados de Organismos Geneticamente Modificados (OGM) ou transgênicos.

Do lado esquerdo, a maior maça é a transgênica (simbolo T) enquanto a maça da direita é a orgânica (natural)

Além da semente, o agricultor deve usar como combinação os insumos químicos para garantir a melhoria na produção. Ou seja, para um agricultor, deve-se usar todo os produtos da mesma empresa para uma melhor produtividade (desde o fertilizante, a semente, o agrotóxico e etc…)

Assim como o agrotóxico, a semente transgênica é considerada como nociva para a saúde e vem sendo debatida na sociedade (leia mais).

Irrigação: desenvolvimento de sistemas de irrigação

Irrigação

 

Mecanização: uso de máquinas no campo para arar, plantar e colher.

A tecnologia dessas máquinas são criadas nas fábricas das cidades. Com a modernização no campo, a dependência (tecnológica e capital) entre o campo e a cidade foi intensificada.

Grandes extensões de terra: para atender a demanda do aumento da produção foi incorporado o sistema extensivo de produção de alimentos, por meio da monocultura e da produção em larga escala (leia no item 4).

Esse conjunto de características foram expandidas para vários países.

2) O combate a insegurança alimentar e o início da Revolução Verde

Nos anos 50 foi intensificado a preocupação mundial com a insegurança alimentar. Ou seja, a preocupação era para que a produção de alimentos dessa conta de satisfazer a população mundial e alcançasse os países do Terceiro Mundo, principalmente, a África.

Nessa época entendia-se que somente a melhoria de técnicas na agricultura fosse o suficiente para acabar com a fome no mundo (ver o item 4)

A Fundação Rockefeller, uma empresa norte-americana, foi a responsável pelo desenvolvimento de pesquisas para aumentar a resistência de sementes foi a. Esta empresa foi contratada pelo governo mexicano para estudar sobre a fragilidade de sua agricultura, por conta de uma variedade fraca de cultivares, solos esgotados e várias pragas e doenças na produção de alimentos.

Nos anos 40 e 50 os especialistas da empresa norte-americana conseguiram criar sementes mais resistentes e produtivas.  A produção do trigo quadruplicou no México.

Depois do sucesso no México, outros países começaram a aderir o pacote tecnológico dando início ao período da Revolução Verde.

Alguns organismos internacionais, que já tratamos aqui nesse blog (leia aqui),  como a Organização das Nações Unidas sobre os Alimentos (FAO), através da Cúpula Mundial sobre Alimentação,  foi responsável por garantir que a Revolução Verde se mundializasse.

3) A Revolução Verde no Brasil

No Brasil, a Revolução Verde ganhou fortes estímulos a partir de 64, sendo veemente defendida pela ditadura militar, cujo governo tornou a modernização no campo como política agrícola oficial [2]

Vale destacar a criação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) em 1973, que se tornaria um centro de estudos e pesquisa sobre recursos genéticos e biotecnologia. Essa empresa seria a responsável por impulsionar a revolução  verde no Brasil .

4) As consequências da Revolução Verde e o impacto social

Se por um lado, a Revolução Verde aumentou a produção de alimentos suficiente para alimentar o mundo, por outro lado, não resolveu o problema da fome mundial, intensificando ou criando novos problemas sociais.

A) Desigualdade produtiva e tecnológica entre os produtores de grandes empresas e da agricultura familiar.

A grande empresa, chamada de Agronegócio, é responsável pelo aumento da produtividade no mundo. Exemplo do agronegócio são como a Monsanto, Bayer, Syngenta e Basf que controlam a produção de alimentos, de sementes e dos insumos químicos (oligopólios alimentícios) [3] 

  • Agronegócio – possui um complexo estágio de produção, juntando o setor primário (agricultura) e secundário (industrial), resultando na verticalização da produção, como a compra e distribuição de suprimentos agrícolas, a produção, o armazenamento, o processamento e a comercialização.

E ainda, o agronegócio concentra sua produção na commoditie (matéria-prima produzida em larga escala e com alto valor no mercado mundial, como grãossoja, o arroz e trigo – e carne), tendo uma redução drástica na produção básica de alimento da população (feijão, mandioca, milho…).  O alimento torna-se uma mercadoria!

Por sua vez, a agricultura familiar no Brasil é responsável pela produção de 70% de alimentos da população e se localizam nas pequenas e médias propriedades;

A agricultura familiar não teve o mesmo acesso a modernização no campo e muitos acabaram empobrecendo, contribuindo para o êxodo rural.

Outro ponto é pensar que a população aumentará e precisaremos aumentar ainda mais a produção de alimentos. Leia o trecho a seguir de uma entrevista com o representante da FAO, Hélder Muteia que ilustra essa problemática:

Em um quadro de crise econômica mundial, a demanda por alimentos de uma população que deverá chegar a 9 bilhões até 2050, impõe às lideranças globais o desafio de aumentar a produção agrícola de maneira sustentável. “Não será fácil. Para responder a essa demanda, a produção mundial de alimentos deve crescer cerca de 70%”, afirmou o representante no Brasil da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), Hélder Muteia, durante a apresentação da palestra Demanda Mundial por Alimentos e o Combate à Fome no Rural Tecnoshow, no dia 05, em Londrina (PR) (leia mais)

b) produção versus distribuição

Embora tenha-se aumentado a produção mundial, a distribuição dos alimentos persistiu na lógica comercial mundial. Boa parte das commodities são exportadas para países como EUA, União Europeia.  Os países que realmente estão no mapa da fome, não tem o mesmo acesso ao mercado mundial de alimentos.

Um termo importante para entender essa diferença é o Segurança Alimentar, que significa praticamente em assegurar a produção de alimentos. Um outro conceito, como de Soberania Alimentar, defende que não basta assegurar a produção alimentos, no sentido de somente aumentar a produção, mas sim, deve-se garantir o acesso da população aos alimentos.

c) Produção de agrocombustível ou biodiesel 

A produção de alimentos como mercadoria atraiu interesse de instituições públicas e privadas para a produção de agrocombustível, um combustível renovável como alternativa ao petróleo.

Como exemplo de interesse público, o PróAlcool (Programa Nacional do Álcool) foi uma forma do governo em incentivar e aumentar a produção do álcool, através de incentivos fiscais e empréstimos para os produtores de cana-de-açúcar e bem como para o setor automobilístico, que contribuiu a criar carros flex. Com esse incentivo, a produção de agrocombustível deu início e cresceu exponencialmente.

Além da cana-de-açúcar outros produtos usados para o biodiesel são: soja, mamona, dendê e girassol.

 D) Monocultura, contaminação do solo e agrotóxicos

Com a produção em largas a produção de alimentos se concentrou na monocultura, o que pode provocar vários problemas no solo, demandando a rotação de culturas e a correção do solo.

Com o uso de fertilizantes e agrotóxicos aumentou a preocupação sobre a contaminação do solo e dos mananciais.

O uso exagerado do agrotóxico vem trazendo uma discussão sobre a produção de alimentos contaminados

E) aumento da concentração de terras e violência no campo

A revolução verde no Brasil fez com que houvesse o aumento da concentração de terras,  aumentando a tensão no campo com os conflitos pela terra.

Como a necessidade de produzir é em larga escala, foi adotado o sistema extensivo de produção. Dessa forma, a busca por terras aumentou proporcionando a concentração de terras em poucos proprietários. Este fator também contribuiu para o êxodo rural.

A charge critica a aprovação do Novo Código Florestal, que permitiria legalmente o avanço do agronegócio em áreas preservadas

 5) O mapa da fome e o Brasil

A FAO propôs mapear a fome no mundo para identificar as regiões com insegurança alimentar. Este mapa, que é inviável de publicar aqui por ser pesado, pode ser visto nesse link.

A seguir ilustramos um mapa semelhante ao da FAO sobre o índice de fome no mundo. Perceba que o mapa ilustra a região com problemas sérios sobre alimentação.

Esse mapa representa as regiões com insegurança alimentar

Em 2014, o Brasil pode comemorar com a sua saída do mapa da fome, indicando que o Brasil não sofrerá com a fome. Porém, ainda temos que resolver a subnutrição da população, ou seja, tem brasileiros que não estão comendo o suficiente de nutrientes numa alimentação, causando consequências graves à saúde e à formação mental e física. Em 2003 a taxa de subnutrição atingiu menos de 5% da população brasileira, mas ainda é preciso de esforços para garantir o fim da subnutrição.

Em 12 anos, o Brasil foi um dos países que mais reduziu a fome, atingindo 82% da queda da fome. (Fome cai 82% em 12 anos no Brasil afirma ONU).

Segundo o relatório global “Estado da Insegurança Alimentar 2015” o crescimento de renda de 20% da população pobre foi eficiente para garantir a segurança alimentar.

Fontes: 

[1] PEREIRA, Mônica Cox de Britto. Revolução Verde. In: In: CALDART, R. S; PEREIRA, I.B; ALENTEJANO, P; FRIGOTTO, G (orgs). Dicionário de educação no campo. Rio de Janeiro: Expressão Popular, 2012. p.687-691.

[2] MACHADO, Luis Carlos Pinheiro; MACHADO FILHO, Luis Carlos Pinheiro. A dialética da agroecologia: contribuição para um mundo com alimentos sem veneno. São Paulo: Expressão Popular, 2014. 360p

[3] BOMBARDI, Larissa Mies. Intoxicação e morte por agrotóxicos no Brasil: a nova versão do capitalismo oligopolizado. Boletim DATALUTA. NERA: Presidente Prudente, setembro de 2011.

OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino de. Os agrocombustíveis e a produção de alimentos. In: A (in)sustentabilidade do desenvolvimento. SIMONETTI, Mirian Cláudia Lourenção (org.). São Paulo: Cultura Acadêmica; Marília: Oficina Universitária, 2011. p.159-180.

ONU. Crescimento da renda dos 20% mais pobres ajudou Brasil a sair do mapa da fome, diz ONU. 28 de maio de 2015. Disponível em: https://nacoesunidas.org/crescimento-da-renda-dos-20-mais-pobres-ajudou-brasil-a-sair-do-mapa-da-fome-diz-onu/

Exame. Sair do mapa de fome da ONU é histórico, diz governo. 16 de setembro de 2014. Disponível em: http://exame.abril.com.br/brasil/sair-do-mapa-de-fome-da-onu-e-historico-diz-governo/

Uol. Biodiesel: Pesquisa sobre agrocombustíveis cresce no Brasil. Disponível: https://educacao.uol.com.br/disciplinas/geografia/biodiesel-pesquisa-sobre-agrocombustiveis-cresce-no-brasil.htm

Graduado e mestre em Geografia pela Unesp, campus de Presidente Prudente (SP). É atualmente professor de geografia em escolas particulares e públicas e professor de geopolítica em cursinho preparatório para vestibular. Escreve no Geografia no Vestibular e no Educa Help.
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Leandro Nieves

Graduado e mestre em Geografia pela Unesp, campus de Presidente Prudente (SP). É atualmente professor de geografia em escolas particulares e públicas e professor de geopolítica em cursinho preparatório para vestibular. Escreve no Geografia no Vestibular e no Educa Help.

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