Silenciamento e Deslegitimação: interações concretas e simbólicas na construção da opressão

 

Texto de autoria do colunista convidado Carlos Henrique de Oliveira, escritor, militante do movimento negro, da NOS – Nova Organização Socialista, da Rede de Jovens SP+ e trabalhador da saúde.

As questões raciais na sociedade brasileira, assim como os recortes de gênero e de classe social, devem ser enxergadas em sua totalidade histórica e social, como um dos pilares de sustentação do status quo em nosso país, quiçá do mundo ocidental, do famoso establishment, que estrutura-nos de forma a produzir cada vez mais violência. Mas a violência aqui referida não é a de superfície, a de atos violentos, de homicídios, tão somente. Esta também, obviamente, mas esta fase é o efeito de uma outra anterior, e mais sólida.

A violência não é percebida, propositadamente, onde se origina, isto é, nessa estrutura montada onde até mesmo as explicações, as interações simbólicas, os preconceitos cotidianos e até mesmo a própria construção histórica de mitos e heróis, são violentas, num processo em que Marilena Chauí (2011) descreve como a mitologia da não-violência [brasileira], porque a sociedade “está cega ao lugar efetivo de produção da violência, isto é, a estrutura da sociedade”. Nesse processo a violência é naturalizada, e “os procedimentos ideológicos fazem com que a violência que estrutura e organiza as relações sociais brasileiras não possa ser percebida” (CHAUÍ, 2011).

Para conseguir construir essa naturalização da violência, necessária sobretudo para que a hegemonia europeia pudesse se manter através da colonização escravocrata, e hoje tenha se modernizado através do sofisticado imperialismo estadunidense, foi necessário – e ainda é – construir uma cultura do silenciamento e deslegitimação daquilo que não está conforme os costumes, a cultura e os interesses do establishment vigente, criando mitos, pseudociências, e até mesmo forjando uma construção histórica para legitimar uma alegada superioridade moral, intelectual, religiosa e cultural daquele que empreende a dominação.

Angela Davis (1981), em seu livro “Mulheres, Raça e Classe”, nos mostra um exemplo muito emblemático disso, ao citar o estudo feito pelo governo estadunidense em 1965 entitulado Negro Family (família Negra) – mais conhecido como Moynihan Report (Relatório Moynihan) – que culpava a estrutura matriarcal das famílias da comunidade negra desde o período de escravidão como a responsável pelo “atraso” no progresso socioeconômico das pessoas negras, numa óbvia intenção de deslegitimar uma estrutura minimamente contra-hegemônica, fora da estrutura branca, patriarcal e hierarquizada. Outros exemplos notórios são as deslegitimações diárias feitas aos movimentos sociais negro e feminista, relativizando suas reivindicações e pautas, tentando levar problemas sociais para a vida privada e íntima, a fim de não solucionar tais problemáticas ao reduzi-las a um problema pessoal de quem está reivindicando. Ou pior ainda, não dar visibilidade nenhuma para essas pautas, escondendo-as, não deixando as pessoas falarem no assunto, fazendo grande pressão para que as pessoas se calem por medo de parecerem ridículas, ou serem vistas como exageradas.

Mas o que precisamos, de fato, prestar muita atenção, é que esse silenciamento, essa deslegitimação dos povos historicamente oprimidos e dominados – aqui no Brasil notadamente a população negra – está diretamente relacionada com a legitimação de um discurso que torna superior, “melhor” a cultura dos dominadores, isto é, a cultura europeia. E é através do embranquecimento do conhecimento ocidental, por exemplo, ou o que alguns pensadores como Renato Noguera (2013) chamam de “epistemicídio”, que se esconde e se nega a filosofia egípcia, por exemplo, que é genuinamente africana e negra, para se dar ampla importância para a filosofia grega e branca como “fundadora do conhecimento no Ocidente”.

Compreendem o que disse no início? É aqui que se começa a construir o mito da superioridade e hierarquização do dominador e dominado. É aqui que começa, portanto, o silenciamento. Ao estudarmos Sócrates, Platão e Aristóteles, sem estudar Amen-em-ope; ao aprendermos somente a História da Europa e não aprendermos com a mesma prioridade a História da África e da América pré-colombiana, ao termos heróis baseados na mitologia grega e a demonização religiosa da mitologia africana, ao termos programas televisivos ocupados majoritariamente por pessoas brancas e com ideais capitalistas e burgueses numa sociedade completamente desigual e com mais da metade da população sendo negra, conseguimos visualizar onde se inicia o silenciamento, a deslegitimação e que culmina na violência opressora que temos em nosso dia-a-dia.

Falar de racismo, de desigualdade social, é remexer num grande baú, numa estrutura de poder baseada em métodos objetivos e subjetivos, concretos e simbólicos de controle social. A verdadeira violência parte dessas opressões sistêmicas, e não dos fenômenos de superfície, e muito menos das reações e resistências contra esta lógica desumanizadora, que ao contrário, procuram ser libertárias e emanciparem-se deste jugo insano.

Referências:

CHAUÍ, Marilena. Ética e Violência no Brasil. Revista BioEthikos, v. 5. São Paulo: Centro Universitário São Camilo, 2011.

DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. Boitempo Editorial, 2016.

NOGUERA, Renato. A ética da serenidade: O caminho da barca e a medida da balança na filosofia de Amen-em-ope. Ensaios Filosóficos, Volume VIII. Dez. 2013.

Gostou do texto? Discutimos a questão do epistemicídio e da origem da filosofia no texto Discussões sobre a origem da filosofia e o racismo epistêmico.

Sejam muito bem-vindas(os)! Meu nome é Rodrigo Castilho e tenho 22 anos. Sou movida por conhecer coisas novas e pelo desejo de ver um mundo com mais igualdade, representatividade e aceitação da diversidade. Como graduanda em filosofia e colunista do EducaHelp, felicito a todas e todos que são amigas(os) do saber [filósofas(os)].
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Rodrigo Castilho

Sejam muito bem-vindas(os)! Meu nome é Rodrigo Castilho e tenho 22 anos. Sou movida por conhecer coisas novas e pelo desejo de ver um mundo com mais igualdade, representatividade e aceitação da diversidade. Como graduanda em filosofia e colunista do EducaHelp, felicito a todas e todos que são amigas(os) do saber [filósofas(os)].

3 comentários em “Silenciamento e Deslegitimação: interações concretas e simbólicas na construção da opressão

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