SOCIOLOGIA NA EDUCAÇÃO BÁSICA: COMO ENSINAR?

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O objetivo do post dessa semana não é “defender o melhor modelo” de ensino de Sociologia na educação básica e nem “ensinar como se deve dar aula”, mesmo porque não existe “um modelo é método único e ideal”. Mas sim, uma reflexão/provocação acerca sobre a forma de ensinar Sociologia para jovens da educação básica, especificamente do ensino médio. O ponto de partida é a minha experiência como sociólogo e professor no ensino básico há sete anos e o convívio com demais professores.

Tomo como condição de análise o disposto da LDB (Leis de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) de 1996, no artigo 35:

O ensino médio, etapa final da educação básica, com duração mínima de três anos, terá como finalidades:

I – a consolidação e o aprofundamento dos conhecimentos adquiridos no ensino fundamental, possibilitando o prosseguimento de estudos;

II – a preparação básica para o trabalho e a cidadania do educando, para continuar aprendendo, de modo a ser capaz de se adaptar com flexibilidade a novas condições de ocupação ou aperfeiçoamento posteriores;

III – o aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico;

IV – a compreensão dos fundamentos científico-tecnológicos dos processos produtivos, relacionando a teoria com a prática, no ensino de cada disciplina.

No inciso 7º do mesmo artigo: Os currículos do ensino médio deverão considerar a formação integral do aluno, de maneira a adotar um trabalho voltado para a construção de seu projeto de vida e para sua formação nos aspectos físicos, cognitivos e socioemocionais.

Não faço aqui nenhuma defesa e apologia à reforma do ensino médio, aliás, discordo da forma como está sendo conduzida como publiquei nesse blog uns dias atrás (Ver o acervo de Sociologia do blog). Citei o artigo 35, pois ele já estava desde o início da LDB e é a base dos PCNs (Parâmetros curriculares nacionais) e DCNs (Diretrizes curriculares nacionais), sendo referências que balizam a construção dos currículos das disciplinas e os métodos dos professores.

No caso da Sociologia percebo que alguns professores se concentram em ensinar as várias escolas sociológicas, se preocupam como os(as) alunos(as) entendem e reproduzem os “conceitos sociológicos” e tal. Quando não, se preocupam em “seguir o cronograma planejado” por pessoas que não fazem parte do cotidiano escolar, em seguir livros didáticos e apostilas das redes de ensino. Esses materiais tem importância? Óbvio que tem! Importância, conhecimento e relevância pelas pessoas que os fizeram em nortear, orientar os caminhos do professor em sala de aula. Volto a repetir, em orientar, pois os mesmos não conhecem a realidade escolar e a diversidade de cada sala de aula. Quem conhece é o(a) professor(a). Ele é o ser mais capacitado para saber o que os seus alunos devem ou não estudar. Os materiais são de apoio ao trabalho docente.

Tendo como cenário o artigo da LDB citado, enfatizo que ensinamos sociologia para adolescentes em formação que seguirão suas vidas da forma como conseguirem como sujeitos sociais e não para “futuros sociólogos”. Há diferenças. Costumo afirmar que os estudantes “vivem a sociologia na prática”, muitas vezes de uma forma mais dura do que nós. Não os ensinamos a viver em sociedade, mas sim refletir, questionar o mundo a sua volta, suas ações e relações sociais e agir conscientemente na construção de mudanças sociais em coletivos com outros indivíduos. Em outras palavras – o que é o mesmo -, os conhecimentos e técnicas de investigação social da Sociologia, como das demais Ciências humanas e sociais, devem estar a serviço dos estudantes e de como eles interpretam, significam e ressignificam o mundo, não o contrário. A Sociologia não pode “ensinar” aos jovens o “modo certo de entender” a sociedade, o “melhor óculos” para se enxergar a sociedade.

Portanto professor e professora de Sociologia, confiem nas suas intuições pedagógicas que surgem das relações sociais com os(as) alunos(as) diariamente em sala de aula, pois nenhum coordenador, diretor e supervisor conhecem tal realidade melhor que você.

Como citado no começo do texto, não existe um “método perfeito e ideal” para dar aula, mas sim o método que cada professor e professora julgue certo, tendo como objetivo a autonomia, participação e formação dos jovens do nosso ensino médio. Os métodos se referem às tentativas e erros. Errou? Corrija na próxima aula. É o que os teóricos da educação costuma chamar de “ação-reflexão-ação” ou de “professor reflexivo”.

 

Na próxima semana a nossa “nave investigadora” fará pouso sobre alguns cientistas sociais, suas principais ideias e métodos. Um quadro geral. Aguardem!!

Sociólogo formado pela FESPSP (Fundação Escola e Sociologia e Política de São Paulo). Professor da rede estadual de ensino de São Paulo. Militante político e cultural.
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Kassiano César de Souza Baptista

Sociólogo formado pela FESPSP (Fundação Escola e Sociologia e Política de São Paulo). Professor da rede estadual de ensino de São Paulo. Militante político e cultural.

Um comentário em “SOCIOLOGIA NA EDUCAÇÃO BÁSICA: COMO ENSINAR?

  • 12 de fevereiro de 2018 em 09:49
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    Obrigada! Gostei muito, pois os fundamentos da sociologia estavam guardadas em minha memória e coração e hoje optei por retornar a essa disciplina como base de meu trabalho e amei descobrir que tudo que eu havia aprendido e amava na universidade; realmente é a minha melhor escolha para o meu trabalho o qual fiz uma seleção e passei em sexto lugar, verifiquei como pra mim foi tão fácil responder questões reflexivas baseando em contextos gerais. Graças a um professor de sociologia tão maravilhoso que me fez uma pessoa consciente e reflexiva.
    Em fim, o seu texto me vez relembrar qual deverá ser minhas ações na prática, muito obrigada.

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