Um Corpo com História

Texto de autoria do colunista convidado Henrique Hokamura. Graduando em Dança pela Universidade Estadual de Campinas. Visa a dança como um meio em que o corpo renova sua energia e modifica o estado de presença.

Antes de falarmos sobre o corpo é preciso entender que o mesmo age integralmente com a mente e com a respiração para que possamos viver. A vida acontece integralmente. Logo, qualquer alteração em alguma dessas características afetará a outra. “Nossa personalidade se expressa através do corpo tanto quanto através da mente. Não se pode dividir alguém em mente e corpo. Qualquer mudança na maneira de pensar de uma pessoa é, portanto, em seus sentimentos e comportamentos, está condicionada a uma mudança no funcionamento de seu corpo. As duas funções mais importantes a esse respeito são a respiração e os movimentos” (Lowen).


Como cada ser humano é único em essência, a prática da dança deve ser abordada de um modo a favor da pluriversalidade, pois o corpo é influenciado pelo ambiente que o cerca, seja ele social, histórico e cultural, criando assim pessoas das mais diversas visões, opiniões, modos e personalidade, cada qual com os seus limites e possibilidades, por isso a importância de se trabalhar a individualidade no trabalho corporal. O corpo que respira para viver é o mesmo corpo que se expressa ao mover-se.
Assim como na filosofia afroperspectivista, em que “o pensamento é sempre uma incorporação, só é possível pensar através do corpo”, na artes da cena temos que “as próprias emoções só podem ser sentidas quando transformadas em corpo, ou seja, somatizadas”. ( BURNIER, 2009,p.19). Isso acontece pois o corpo é a principal ferramenta dos artistas do palco, não apenas o corpo, mas o corpo “em-vida”. O corpo em vida é o que Burnier define como o estar presente, o estar vivo e se expor ao vivo, ao passo que outros artistas não necessariamente precisam estar presentes quando suas fragilidades são expostas por meio de suas obras.
Falando de afroperspectiva, é importante discutir o corpo negro na dança. Temos em mente que cada pessoa tem o seu próprio movimento, logo, a sua própria dança. Porém não podemos negar que são poucas as pessoas que largam os preconceitos e estereótipos do corpo midiático para aceitar o seu corpo e a sua dança como são. A maioria cai no senso comum sobre a dança.

Quando se fala em dança muitas das vezes a primeira coisa que se vem em mente é o balé, uma dança européia onde a tradição domina até os dias de hoje. Dança imortalizada por seus balés de repertórios cujas bailarinas principais são, em sua grande maioria, brancas. Enquanto isso as danças populares brasileiras são quase desconhecidas, quando não banalizadas.

O corpo negro se vê então entre a discriminação da sua origem e a discriminação de uma dança branca. Não é fácil ser um bailarino negro dentro de uma sala de balé, principalmente em dia de apresentação, onde o seu cabelo não se enquadra no padrão do restante do grupo, ou quando escuta da sua professora “ o que você vai fazer com esse cabelo?”. Nem imagino o quão duro deve ser para uma bailarina negra então.
Essa imagem da bailarina rosa, frágil e de tutu é uma visão antiga quando se olha a dança como técnica e não como estética. Entretanto, o senso comum faz com que essa imagem estereotipada da bailarina se eternize. A nova bailarina é independente, dona do seu próprio corpo, não precisa de um par e nem de figurino, ela dança com a sua história.
Por falar em história, se antes os livros só mostravam coreógrafos homens, agora eles só mostram mulheres brancas. Apesar das mulheres negras que fizeram do seu corpo uma arma na luta contra a segregação racial, parece que foi passada uma borracha BRANCA  em cima da sua história.

Gostou do tema? Veja nosso texto Renato Noguera e a Filosofia Afroperspectivista.

Sejam muito bem-vindas(os)! Meu nome é Rodrigo Castilho e tenho 22 anos. Sou movida por conhecer coisas novas e pelo desejo de ver um mundo com mais igualdade, representatividade e aceitação da diversidade. Como graduanda em filosofia e colunista do EducaHelp, felicito a todas e todos que são amigas(os) do saber [filósofas(os)].
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Rodrigo Castilho

Sejam muito bem-vindas(os)! Meu nome é Rodrigo Castilho e tenho 22 anos. Sou movida por conhecer coisas novas e pelo desejo de ver um mundo com mais igualdade, representatividade e aceitação da diversidade. Como graduanda em filosofia e colunista do EducaHelp, felicito a todas e todos que são amigas(os) do saber [filósofas(os)].

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